Como sustentar afeto nas relações escolares virtuais?

Como sustentar afeto nas relações escolares virtuais?

Colégio Oswald de Andrade

06 de agosto de 2020 | 14h24

Fernando Pimentel

Este artigo é intitulado com uma pergunta. Porém, o objetivo não é respondê-la, mas, sim, compartilhar algumas reflexões que nos ajudam a conviver com ela, já que é uma preocupação constante.

O Colégio Oswald é atravessado pela afetividade. Sempre o foi. Uma escola que, desde sua fundação, valorizou o olhar da psicologia, unido à pedagogia, por entender que a aprendizagem envolve, necessariamente, o afeto. 

Antes de adentrar nessa discussão, é importante sublinhar que o termo afeto não se refere unicamente ao prazer, ao gostar ou a “bons” sentimentos. Como defende John Dewey¹ em seu conceito de experiência, esta se caracteriza pela interação do sujeito com o meio, de modo que meio e sujeito se alterem nessa troca, numa narrativa com início e fim. Neste sentido, ao pensar em afeto, aproximamo-nos da noção de aquilo-que-nos-afeta. E nas experiências relacionadas ao desenvolvimento humano, frequentemente somos afetados de maneira “negativa”. O confronto com o mundo, com o outro, e até consigo próprio, são importantes experiências, que resultam em um sujeito transformado por elas, de modo a encarar uma próxima experiência de maneira diferente da qual se viveu as anteriores. 

Dito isto, retornamos à nossa questão inicial. Como sustentar afeto, ou seja, interação com o mundo e com as demais pessoas, dotadas de um sentido narrativo, em um mundo tão limitado em decorrência de uma pandemia? Estudantes em idade escolar foram privados, no ano de 2020, de elementos fundantes das experiências escolares, como o contato físico com professoras e professores, colegas e espaços. 

Por outro lado, não podemos negar a materialidade da experiência virtual. Quando estamos em contato com outro em uma videochamada, ainda que com qualidade bastante diversa da interação presencial, estamos efetivamente em interação. Uma interação que envolve menos sentidos (há espaço para estímulos visuais e auditivos, porém o tato e o olfato, por exemplo, se encontram limitados neste formato). E há afeto – somos afetados – nessa troca. 

Na rotina escolar, percebemos o quanto a limitação de experiências escolares (não há mais pátio, não há mais brincadeira no intervalo!) interfere diretamente na motivação dos alunos para a produção escolar. Portanto, é quase impensável que, para algum estudante em idade escolar, o isolamento social não seja vivido como experiência, que afeta, que transforma. A diminuição na motivação nos sugere um sujeito que está sendo afetado pelo meio, ao mesmo tempo que, ao interagir com o meio (virtual com a escola e presencial dentro de suas casas), o transforma. 

Portanto, sustentar afeto nas relações escolares virtuais nos parece ser pensar uma prática que tenha abertura para transformações a partir da interação com aqueles que a vivem.

E tais transformações não podem ser pensadas a partir de uma única via relacional – essa abertura precisa estar presente nas relações com alunos e alunas, famílias, docentes e todos que se envolvem no processo educacional. Essa premissa não é diferente, ao nosso ver, do que se dava no processo escolar pré-pandemia, mas, no contexto atual, a forma como isso acontece é diferente. 

Escutar os sentidos dos alunos que não abrem suas câmeras, que não conseguem entregar tarefas nos prazos ou que precisam de mais ajuda para se organizar, parece um imperativo agora. E falamos em “escutar sentidos”, em oposição à ideia de buscar sentido, uma vez que esta segunda pode falar mais de nós do que deles. 

Por fim, para que escutemos nossas alunas e nossos alunos, é preciso que deixemos o púlpito aberto a eles em momentos planejados. Espaços de escuta, que tenham como foco o isolamento social e o processo de ensino remoto, têm se mostrado frutíferos. Claro que cada contexto demanda um determinado tom (diferentes faixas etárias demandam diferentes formas discursivas). Porém, entendendo que a escola agora é outra, precisamos perguntar aos estudantes: “Que escola é essa?” – eles são os únicos que podem nos responder essa pergunta. Então, cabe a nós a abertura de sermos afetados pelas respostas que forem recebidas.

¹Muitas obras deste autor tratam deste tema. Algumas que nos serviram como referência estão listadas abaixo.

Referências Bibliográficas

DEWEY, J. Experiência e Educação. São Paulo. Companhia Editorial Nacional. 1979. 

DEWEY, J. Arte como experiência. São Paulo. Martins Fontes, 2010. 

DEWEY, J. Democracia e educação. São Paulo. Companhia Editorial Nacional. 1959. 

DEWEY, J. A Escola e a Sociedade e A Criança e o Currículo. Lisboa. Relógio D’Água. 2002

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