Christian Dunker abre programação do Formações Oswald

Christian Dunker abre programação do Formações Oswald

Colégio Oswald de Andrade

23 de setembro de 2019 | 13h02

Nosso primeiro encontro do Formações Oswald contou com a participação especial do psicanalista e professor titular da Universidade de São Paulo, Christian Dunker, que palestrou sobre “ética e pós-verdade”, no contexto da discussão com educadores e famílias. O encontro foi apresentado e mediado pela Assessora de Práticas Inclusivas do Colégio Oswald e psicanalista Nana Navarro.

Dunker iniciou a palestra com uma citação de Oswald de Andrade, retirada do “Manifesto Antropófago”, contextualizando suas reflexões nas palavras do modernista que dá nome a nossa escola: “Estamos fatigados de todos os maridos católicos suspeitosos postos em drama. Freud acabou com o enigma mulher e com outros sustos da psicologia impressa. O que atropelava a verdade era a roupa, o impermeável entre o mundo interior e o mundo exterior. A reação contra o homem vestido. O cinema americano informará”. Esta abertura iniciou sua fala sobre a verdade como conceito estruturado e compreendido no tempo.

 

 

O psicanalista organizou sua fala por meio de múltiplos conceitos de verdade e da sua transformação para a percepção humana. “No século XVII, Descartes acreditava que o homem não podia alcançar a verdade pura através de seus sentidos. Dessa forma, ele procurava legitimar a ciência para encontrar uma certeza inquestionável, e a dúvida surgiu como método”, explicou o psicanalista. Segundo ele, nascia ali uma nova interpretação da verdade, ou seja, a contraposição da verdade ética e da verdade cognitiva. “A verdade está despotencializada, a ciência toma o seu lugar. As coisas ‘são como são’, independem da moral, a ciência é a única capaz de explicar as coisas”, completou Dunker, explicando a ótica cartesiana.

Em jogo com a ideia de verdade como certeza inquestionável, surge a pós-verdade. Conceito em que estão implicados os valores morais como algo intrínseco à construção da realidade. “A verdade faz parte do fundamento moral do sujeito que a profere”, menciona Dunker. 

Este conceito leva à reflexão sobre a democratização da ciência, a disseminação do saber e o apreço à dúvida. Ademais, ainda que o método científico tenha prestígio e relevância na sociedade atual, a verdade científica não é inquestionável e “outras verdades” poderiam tomar o lugar das antigas consagradas, não só no campo científico, mas também em outras esferas do saber e da cultura. 

“A ciência não era um consenso unívoco, houve uma crise de prestígio. A crise de autoridade da verdade advém da descoberta de que a ciência tem interesses, porque o cientista não é um agente neutro que se submete à razão”, acrescenta Dunker.

 

Ética e pós-verdade

A discussão sobre a pós-verdade, no âmbito da educação, tem gerado preocupações aos educadores. Na medida em que o método científico foi sendo democratizado e a percepção sobre a ciência foi tornando-se algo não definitivo e categórico como se acreditava, os questionamentos começaram a surgir sem respeitar os métodos. Ao refutar as premissas científicas com moral, crença e percepção, contaminaram-se as conclusões, criando as tais verdades subjetivas e individuais. Segundo Dunker, dessa forma as trocas em salas de aula passam a ser substituídas por embates de monólogos.

“As escolas estão sendo questionadas, por famílias, a falar de criacionismo, e não apenas evolução, como se todas as verdades precisassem ser contempladas”, explica Dunker. Para o psicanalista, a realidade e o tempo que a escola tem para educar – além dos objetivos pedagógicos assumidos com foco na formação de mão de obra para o trabalho, e não de cidadãos – não permitem que os professores lancem mão de experimentos que comprovem as premissas trazidas para a sala de aula. 

A cisão do conhecimento em diversas áreas (exata, humanas e biológicas) e a aniquilação da ética e da filosofia como matérias importantes para a vida humana explicam muito a relação que os estudantes travam com o saber.

Dunker menciona, ainda, a dificuldade do resgate dos alunos pelos professores, como representantes do saber, em meio a propostas como a “escola sem partido” e o controle do Estado e das famílias na escolha dos temas abordados em sala de aula.

Com reflexões importantes para o contexto escolar, a palestra com o psicanalista gerou questões à plateia presente, que discutiu os problemas da escola nesta era da pós-verdade. A atividade inaugurou o Oswald Formações, espaço idealizado com a proposta de compartilhamento de práticas e reflexões sobre a educação, no Colégio Oswald. 


Em breve, vamos disponibilizar a íntegra do evento no nosso canal no YouTube.

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.