A Orientação Profissional em tempos de novas configurações do mundo do trabalho

Colégio Oswald de Andrade

16 Outubro 2015 | 15h09

Ao final do Ensino Fundamental II e durante o Ensino Médio, um dos papéis importantes da escola é o de criar um espaço de diálogo, debate e informação a respeito do mundo do trabalho. Nessa perspectiva, a área de Orientação Profissional do Oswald visa não só auxiliar o aluno no seu processo de escolha de um curso superior, mas também ajudá-lo na sua passagem para o mundo adulto e para os novos desafios acadêmicos que terá pela frente. Para abordar esse tema, entrevistamos Cecília Vardi, coordenadora do 3º ano do Ensino Médio e responsável pelo projeto de Orientação Profissional de nossa escola:

Como fazer Orientação Profissional em um cenário em que novas profissões surgem, outras desaparecem e outras passam por transformações profundas?

Cecília Vardi: O orientador profissional precisa conhecer muito bem o cenário em que está inserido e as perspectivas futuras. É importante entender que a Orientação Profissional se faz dentro de certo contexto cultural, econômico e social, que leva em conta a realidade do aluno. Carreiras que são consideradas como profissões de sucesso variam de uma cultura para outra.

Além disso, há um cenário de mudança que vem ganhando mais e mais velocidade. Uma mudança crucial diz respeito ao tipo de carreira que se apresenta hoje a quem termina um curso superior e ingressa no mercado de trabalho. No passado recente, os caminhos das carreiras eram mais “retos”, digamos. O profissional iniciava a carreira como médico, engenheiro ou jornalista e seguia assim por décadas, conquistando novos cargos ou funções dentro da mesma área – às vezes, dentro da mesma instituição. Hoje, isso não é mais a regra.

Um profissional hoje pode fazer sua graduação em engenharia, seguir para o mercado financeiro e terminar sua carreira na área de Recursos Humanos. Arquitetos transformam-se em produtores gráficos, agitadores culturais, construtores de software. Por isso, o processo de escolha profissional deve falar muito mais da construção de um projeto de vida e, dentro dele, da construção de um projeto de carreira. Nessa perspectiva, o curso superior é pensado como um caminho para se alcançar os objetivos do futuro. Procuramos promover um processo de escolha mais elaborado, no qual há muita reflexão e elaboração de conflitos internos por parte do aluno, para que ele saiba bem o que quer.

Há alguma idade certa para o jovem começar a pensar na sua escolha?

CV: Não há uma idade certa. O que existe são questões culturais diversas. No Brasil, geralmente, a escolha profissional só começa a ser pensada no terceiro ano do Ensino Médio. É ao final do primeiro trimestre, com a chegada das informações sobre as inscrições para os vestibulares, que os alunos começam a pensar pra valer sobre o assunto e descobrem que não é algo tão simples assim. Há diversos exemplos de políticas públicas no mundo em que a Orientação Profissional começa a ser trabalhada desde o Ensino Fundamental I. É claro que o aluno não vai escolher a faculdade que irá cursar no Ensino Fundamental I, mas sim trabalhar diversos processos que são inerentes à construção da sua identidade profissional.

A “identidade profissional” de um indivíduo vem sendo construída desde a infância. Ao conversar com uma criança de 3 ou 4 anos ela já irá dizer o que ela vai ser quando crescer: bailarina, astronauta, bombeiro, super-herói, etc. Existe ali uma fantasia já formada sobre o que ela quer ser, e que dialoga com os problemas que ela entende que irá resolver se ela seguir nessa profissão. É evidente que esse imaginário vai se alterando ao longo do tempo e novas possibilidades vão surgindo. Sendo assim, pode-se dizer que um adolescente já fez várias escolhas e já desistiu de várias escolhas profissionais ao longo da vida dele. Mas essas escolhas – e mudanças – quase nunca são pensadas, elaboradas ou exploradas profundamente em algum momento. Não existe uma política pública de orientação profissional no Brasil, ou seja, a reflexão acerca da escolha profissional não é foco de trabalho dentro do ambiente escolar. Fazer uma escolha profissional definitiva é muito difícil dentro desse cenário, em que se inicia o trabalho com estas questões, no melhor dos casos, no 2º ano do Ensino Médio.

Diante desse cardápio de centenas opções profissionais, como fica o aluno hoje, que busca um caminho profissional?

CV: É realmente muito difícil. Por que o aluno tem não só mais de 400 opções de cursos universitários para escolher, mas diversas possibilidades de formação. Existem cursos tecnológicos, que são cursos curtos que duram de 2 a 3 anos, que oferecem uma formação mais dirigida e têm uma determinada aceitação no mercado de trabalho; existem os cursos tradicionais, como os bacharelados e licenciaturas, que também são cursos com fins diferentes – a licenciatura está voltada ao ensino na escola no Fundamental II e Médio e bacharelado está voltado a uma formação profissional que vai te permitir atuar de forma mais ampla no mercado. Mas o aluno não sabe o que é isso. Ele não tem essa informação. Chamamos essa área de “informação profissional”.

Por exemplo, eu tenho um aluno que quer trabalhar com videogames. Ele só sabe que quer trabalhar com videogames, mas ele não sabe onde que trabalhar, que função quer exercer, se quer ser o desenvolvedor de trilha, de cenário, de dinâmica de jogo, se ele quer vender videogames, se quer ser aquele que testa o videogame para saber se o jogo é bom. Ele só sabe que gosta de videogames e quer trabalhar com isso. Mesmo que ele saiba mais ou menos para onde ele quer ir, ele tem uma ideia muito distante e muito pouco informada do mercado de trabalho.

Uma das maiores questões que temos que enfrentar no trabalho de Orientação Profissional é,  justamente, a falta de informação organizada. A maioria das escolhas não estão baseadas em muita pesquisa prévia, mas sim em alguma conversa, ou até mesmo feira ou evento que produz encantamento por algum curso. Mas, chegando lá, os alunos descobrem que não era nada daquilo que esperavam. No Brasil, os índices de desistência das faculdades estão em torno de 40%, mesmo nas universidades públicas. Muitas pesquisas mostram que boa parte dessa desistência se dá pela falta de informação dos alunos, que chegam muitas vezes imaginando que irão estudar ou fazer uma coisa e se deparam com uma realidade totalmente diferente.

Sendo assim, a ação da Orientação Profissional tem ação profilática em vários sentidos, até mesmo do ponto de vista da saúde psicossocial do indivíduo. Possibilita que ele se perceba em relação ao contexto familiar, cultural, social e educacional em que está inserido; que faça uma escolha profissional que tenha a ver com a construção de seu projeto de vida.

Assista ao vídeo sobre o trabalho de Orientação Profissional desenvolvido no Oswald:

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