Indicação literária: um novo trato com o Lobo

Indicação literária: um novo trato com o Lobo

Confira a dica de literatura do professor Fabio Gomes, da Educação Infantil, que apresenta uma resenha sobre o livro 'Este é o Lobo'.

Ofélia Fonseca

31 de março de 2021 | 15h16

Arte de capa do livro: Este é o Lobo. A capa é vermelha e tem a ilustração de um lobo no centro. Fim da descrição.

Professor Fabio Gomes, da Educação Infantil, apresenta sua resenha do livro ‘Este é o Lobo’ (Imagem: Reprodução)

 

Por: Fabio Gomes*

No dia 21 de novembro de 2020, o livro ‘Este é o Lobo’ foi lançado, e apesar de ter sido um ano muito conturbado, o autor Alexandre Rampazo trouxe uma obra ímpar para a literatura infantil

A publicação do livro ficou por conta da editora Pequena Zahar, hoje integrante da Companhia das Letrinhas, uma editora muito responsável. Entre tantas publicações com lobos na literatura infantil, esse livro foge do comum. 

 

Afinal, quem é o Lobo?

No geral, o personagem Lobo está muito relacionado ao papel de vilão da história, aquele que remete a maldade e ao terror. Entre as narrativas mais famosas, podemos destacar Chapeuzinho Vermelho, Os Três Porquinhos, Os Três Cabritinhos e tantos outros. Apesar de tantas histórias na mesma direção, sabemos que na vida real não existem pessoas boas ou ruins o tempo todo, sendo assim, os personagens das histórias também podem ser vistos com essa mesma generosidade, não? O livro ‘Este é o Lobo’ faz um deslocamento de um dos maiores vilões dos clássicos infantis. 

Em sua obra, o autor Alexandre Rampazo faz um movimento muito interessante, pois em nenhum momento ele caracteriza o Lobo como um personagem com más intenções, todavia, nossa leitura tão atravessada pela cultura, vai nos conduzindo para o arquétipo de sempre, o Lobo Mau. 

Inicialmente, no caso das ilustrações,  a cada passagem de página, conseguimos perceber que o Lobo não muda de expressão, sempre está com um ar sério e olhar estreito, atravessador. 

Quanto ao texto, ele não traz nenhuma informação sobre o caráter desse Lobo, e articulado com as ilustrações, leva-nos a acreditar que o personagem é responsável por ‘desaparecimentos’ que ocorrem no decorrer da leitura. 

Quando alcançamos as últimas páginas, uma surpresa surge, o Lobo finalmente recebe algum tipo de expressividade, e nada próximo do esperado. Ao final do livro, somos capazes de notar que este Lobo não tem nada de mau, apesar dos indícios e do nosso imaginário, inclusive, ele é mais próximo dos personagens, mais do que poderíamos imaginar. Bastou um “EI, SEU LOBO… QUER BRINCAR?”

Existe uma informação muito importante: o ilustrador do livro é Alexandre Rampazo, ou seja, autor e ilustrador são a mesma pessoa. Além de ilustrar um lobo intimidador, quase que para brincar com o pensamento do leitor, o Alexandre faz uso de outras estratégias no trato das ilustrações. 

Nas primeiras páginas do livro, nós encontramos um lobo grande, que não cabe por inteiro nas páginas da obra, contudo, no caminhar da história, o lobo vai diminuindo, como se estivesse afastando-se. Logo, nas páginas finais, o personagem se encontra miúdo e distante, e só aparece grande novamente depois do  “EI, SEU LOBO… QUER BRINCAR?”

Em diálogo com as ilustrações e projeto gráfico, o texto faz uso de um recurso muito conhecido, a repetição, mas ele aplica o recurso de duas formas distintas, uma para tratar o Lobo e outra para trabalhar com os demais personagens. 

No que se refere ao Lobo, a frase “Este é o Lobo” é empregada por quase toda a obra, quase como se isso já bastasse para caracterizar o Lobo, em conjunto com a ilustração. Em contrapartida, os outros personagens surgem com um “Este (a) é …” e desaparecem com um  “… não está mais aqui”, sem muitas explicações, deixando-nos imaginar o que acontece, a partir daquilo que trazemos enquanto experiências narrativas. 

Tudo isso, para no final descobrirmos que o Lobo não é o responsável pelo “… não está mais aqui”, e que na verdade, todos os personagens estão ali. 

Sabendo de tanto, podemos constatar que ‘Este é o Lobo’ tem um final nada convencional, e, ademais, trabalha com um personagem através de outra perspectiva e com intertextualidade, porque traz personagens de outras narrativas onde o Lobo se faz presente.  

Assim sendo, vale a leitura para todo o tipo de crianças, apenas destacando a faixa etária daquelas entre 1 e 99 anos anos.

 

Boa leitura e boa experiência! 

*Fabio Gomes é professor do Grupo 3 da Educação Infantil do Colégio Ofélia Fonseca.

 

Algumas fontes e indicações bacanas:

Este é o Lobo – Amazon

A solidão do lobo mau – Cultura – Estadão

Este é o Lobo – Companhia das Letras

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.