Trombadas, tombos e fantasias de crianças….

Trombadas, tombos e fantasias de crianças….

Para a criança, brincar é como respirar. Para cada brincadeira, uma fartura de habilidades! As crianças não fazem separação entre brincar e aprender, e nem nós, adultos e adultas, devemos fazê-lo.

Ofélia Fonseca

02 Julho 2015 | 21h22

Como é conviver com crianças em torno de três anos?

Crianças de três, ou quase três anos compartilhando o tempo delas umas com as outras. Brincando juntas, comendo juntas, correndo juntas, descobrindo-se na relação com adultos e crianças.

Crianças que fantasiam. Crianças que se encontram. No encontro, vão aprendendo a conviver, vão aprendendo a expressar e a regular suas emoções… suas vontades e não-vontades.

À medida que a criança começa a se interessar pelo outro, ela começa a incluir outras crianças em suas brincadeiras e passa a apreciar a companhia delas. Num dia, muitas companhias; noutro dia, uma companhia só; numa hora, eu topo tudo; noutra hora não me deixam fazer nada!

Em grupo temos de lidar com a espera, com as disputas, e com as frustrações. Esse é o tempo de aprender a lidar com tudo isso. É o tempo de poder aprender com o outro, de brincar muito com o outro, de partilhar, tentar, errar, de se machucar e levantar-se logo em seguida. E depois continuar brincando!

É o tempo de conhecer os limites do outro, e os limites da vida. Hora para brincar, hora para lanchar, hora para ouvir uma história, para conversar sobre um assunto. A rotina vai se estabelecendo e a criança vai ganhando confiança à medida que se apropria dela.

A rotina de uma criança de três anos na escola é planejada de modo a contemplar tempos, espaços e materiais adequados para cada momento. Uma criança de três anos já tem mais recursos para concentrar-se, escutar o outro, e perceber que tudo tem um começo, meio e fim, do que uma criança de dois anos. Por isso, cabe a ela, e ao grupo, ajudar a organizar a sala para começar uma pintura, guardar os brinquedos para a hora do lanche, ajudar os colegas com suas meias, calçados, casacos, abrir o zíper da lancheira, abrir o pote do lanche, entre outras pequenas-grandes tarefas, que contribuem para a independência, visando sempre a participação da criança no seu próprio processo de aprendizagem.

 

Livre movimentar, para aprender…

Respeitar o tempo. Tempo do brincar. Brincar a todo tempo.

Para a criança, brincar é como respirar. Para cada brincadeira, uma fartura de habilidades! As crianças não fazem separação entre brincar e aprender, e nem nós, adultos e adultas, devemos fazê-lo.  É no recreio, sobretudo, que a criança vivencia a sensação prazerosa, ofegante e vertiginosa de correr, pular, escalar, girar, subir e descer, balançar-se, equilibrar-se… nesse sentido, as brincadeiras são pretextos para essas sensações, que envolvem grande esforço físico e coordenação motora: o escorregador, o pega-pega, a gangorra, os bancos, as escadas, portas, passagens e caminhos labirínticos; tudo são possibilidades de desenvolturas, e portanto, de desenvolvimento – percebendo quais os limites do corpo, os limites do espaço.

Conhecendo e testando esses limites, algumas medidas se encaixam e outras extrapolam, e o resultado são as trombadas, os tropeços e o constante encostar-se e enfrentar-se entre os pequenos e pequenas.

O espaço da brincadeira, seja o parque, uma sala, um cantinho, acolhe todo tipo de brincadeiras: desde as mais expansivas e aventureiras, às mais restritas e minuciosas. Esse espaço contém os elementos com os quais a criança dialoga e explora: formas, texturas, aromas, cores, personagens, obstáculos… o contato com a natureza, com outras crianças, jeitos diferentes de se fazer a mesma coisa.

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Em sua individualidade, cada criança proporciona seus próprios desafios. O olhar atento das professoras capta esse momento e com esse olhar fazemos uma intervenção, quando necessário, encoranjando a criança a alcançar aquilo que deseja e começar um novo desafio.

 

Livre brincar, para imaginar…

As brincadeiras espontâneas envolvem o faz de conta. Surge o fascínio pelo desconhecido, pelo sombrio, pelo misterioso: a bruxa/feiticeira, o lobo mau, o gigante…

Esse universo é alimentado pelas histórias, que vão ganhando significado e sendo elaboradas pela imaginação, e passam a ser enredo das brincadeiras em grupo: entrar e sair da casinha fugindo do lobo mau, preparar um feitiço no caldeirão, passear pela floresta perigosa, e até envenenar a professora!

As histórias fazem parte de outro ritual. História lida, história contada, história cantada, história gesticulada. O deslumbre de ouvir, o encanto com a ilustração, as surpresas de imaginar, e a sensação de desvendar um livro ao manuseá-lo fazem parte desse ritual de apreciar histórias, recontá-las e elaborar outras.

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O frequente estado imaginativo da criança exige uma outra configuração de tempo. As crianças precisam de tempo para brincar livremente – o tempo do ócio. Elas não vivem o tempo do relógio e quando estamos com elas é importante ter a consciência disso para  termos condições de entrar no universo delas e melhor aproveitarmos essa convivência: com inteireza e qualidade.

Tempo livre, criança livre…

Professora Maria Fernanda Tchalian
Ed. Infantil – G2