Sagas Juvenis na Escola

Sagas Juvenis na Escola

Reserve lugar para as sagas na estante!! Deixe o preconceito de lado e aproveite a febre dos adolescentes pelos best sellers.

Ofélia Fonseca

09 Julho 2015 | 09h20

Estimular o hábito da leitura nos estudantes é tarefa difícil e já bem conhecida do professor. O pior é quando o educador não tem que enfrentar apenas a suposta resistência dos seus alunos, mas também o descrédito dos seus colegas de profissão: é muito fácil cairmos na armadilha dos lugares-comuns que papagueiam a ideia de que “os jovens (de hoje) não gostam de ler”.

Esses clichês, geralmente sentenciados de forma sumária e impensada, podem nos levar a estratégias pedagógicas que implicam somente a nossa desistência de ensinar, como a eliminação sutil, porém sistemática, dos conteúdos de literatura dos currículos do Ensino Fundamental e do Médio, ou as supostamente bem-intencionadas adaptações de clássicos da literatura brasileira para uma linguagem “mais atual”, que causaram polêmica recentemente (verdadeiras aberrações que são bem diferentes de resumos ou das já tradicionais adaptações infanto-juvenis).

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Em 2012, foi divulgada a 3ª edição do estudo “Retratos da leitura no Brasil” (a mais recente, até o momento), realizado pelo Instituto Pró-Livro. A pesquisa revela que o maior percentual de leitores no país (segundo os critérios, quem leu pelo menos um livro inteiro nos últimos três meses) encontra-se entre a população mais jovem.

Segundo a pesquisa, na faixa etária que vai dos 11 aos 24 anos de idade, encontramos um percentual de 35% dos brasileiros que se declaram leitores; na faixa etária equivalente seguinte (25 a 39 anos), esse número cai para 25%; dos 40 aos 69 anos, temos apenas 24% de leitores.

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Fonte do estudo:

http://prolivro.org.br/home/index.php/atuacao/25-projetos/pesquisas/3900-pesquisa-retratos-da-leitura-no-brasil-48

Fica desmentida a falácia de que jovem não lê. Mas agora passamos ao outro problema desta questão toda: o que o jovem anda lendo? É aí que entra outro preconceito: o jovem só lê “porcaria”. E leia-se como “porcaria”: histórias em quadrinhos e “best-sellers” (infanto-juvenis ou não).

E, infelizmente, alguns formadores de opinião – no geral, muito sérios – acabam caindo na armadilha e ajudando a propagar ideias pré-concebidas e sem qualquer relação com os fatos. É o caso do premiado escritor Milton Hatoum, que declarou recentemente a uma plateia de estudantes de escolas municipais de São Paulo que “quem lê só best-seller e ‘Cinquenta tons de cinza’ não pode ser bom escritor”.

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No entanto, a tarefa do professor é esclarecer seus alunos de que tudo aquilo que chamamos de “literatura” é composto por uma diversidade muito grande de gêneros textuais, propósitos de estilo, tema ou ideologia, e modos de circulação no sistema econômico em que vivemos.

Desse modo, se o jovem quer, por exemplo, se tornar escritor de “best-sellers”, então o que ele mais deverá ler – para adquirir repertório – são justamente best-sellers. Junte-se a isso o fato de que ele não deverá, obviamente, se alienar por completo da literatura mais clássica ou erudita, procurando também se familiarizar com os seus instrumentos, e teremos a forte possibilidade de esse jovem se tornar sim um bom escritor, a despeito de generalizações e preconceitos intelectuais.

Assim, seguindo as recomendações dos Parâmetros Curriculares Nacionais, e também as tendências mais contemporâneas dos estudos literários nas universidades, nós do Ofélia Fonseca procuramos trabalhar a literatura colocada mais segundo sua grande diversidade de gêneros e propostas, do que segundo supostos cânones de qualidade que quase nunca são consenso, mesmo dentro do universo acadêmico, e estão em constante transformação.

E partimos dos gêneros e propostas que mais interessam aos nossos alunos e que estejam mais próximos de sua faixa etária e seu repertório, sempre com o objetivo geral de estimular e promover o desenvolvimento das competências e habilidades em leitura.

É assim que, no Ensino Fundamental (8º e 9º anos), trabalhamos com sagas literárias que já são grandes best-sellers entre os jovens, no caso: o primeiro livro da saga de Harry Potter, escrita por J. K. Rowling (“Harry Potter e a pedra filosofal”); e “O Hobbit”, de J. R. R. Tolkien (que serve de introdução à saga “O Senhor dos anéis”).

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Através de atividades diversificadas, como: leituras coletivas, debates, pesquisas sobre as obras e seus autores, trabalhos (seminários, produção de infográficos, redações criativas inspiradas pelas obras), além de aulas expositivas que procuram relacionar conteúdos de teoria literária aos livros que estão sendo lidos, procuramos levar o aluno a compreender a riqueza dessa literatura, e aprofundar o contato com essa riqueza (o que levaria à leitura de obras mais próximas do “cânone”).

Em “Harry Potter”, estudamos o uso que a autora faz de ironias e metáforas, as referências à alquimia (e a importância da alquimia para a história da ciência e do pensamento humano), as temáticas e mensagens presentes alegoricamente na obra (crítica a diferentes formas de preconceito, e a consequente necessidade de respeitarmos as diversidades de gênero, etnia, religião, orientação sexual, etc), além da própria construção narrativa e de personagens, que oferece simbolicamente para o jovem leitor importantes meios de identificação, tendo em vista o seu processo de crescimento e amadurecimento.

 

Com “O Hobbit”, estudamos: a natureza e a importância sociocultural das mitologias e das narrativas míticas (a obra fictícia de Tolkien é bastante influenciada por tradições culturais de povos muito reais), que são patrimônio da cultura e da identidade popular de todas as sociedades; as características orais dessas narrativas míticas e sua linguagem sobretudo coloquial (o que poderia ser um ponto de encontro, por exemplo, entre Tolkien e Guimarães Rosa, incluindo o sertão mítico do escritor mineiro); a importância simbólica da figura do herói, que atravessa mitos, obras literárias e produções culturais recentes (cinema, TV, HQ’s, etc). 

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Os estudantes demonstram vivo interesse e participação em relação a essas obras e atividades; mesmo os que já as conheciam e tinham lido, engajam-se bastante nos debates e atividades de reflexão – pois entendem que é raro essas obras serem incorporadas à educação escolar. E compreendem rapidamente a proposta, passando a valorizá-la. É dessa forma que, conforme acreditamos, nós vamos promovendo a leitura e o seu desenvolvimento, sem preconceitos.

André Renato Oliveira Silva
Professor de Língua Portuguesa – Ensino Fundamental II e Médio