O Aprendizado da Dança e o Fomento à Autonomia

Nessa semana nos deparamos com muita alegria com os estudantes do segundo ano B ensaiando no intervalo a coreografia que criaram em aula! Os meninos deixando o futebol um tempinho de lado, as meninas esquecendo um pouco as heroínas da Disney e o conteúdo das salas invadindo livremente o espaço de liberdade do recreio.

Colégio Ofélia

29 Outubro 2016 | 07h23

Nessa semana nos deparamos com muita alegria com os alunos do segundo ano B  ensaiando no intervalo a coreografia que criaram em aula!Os meninos deixando o futebol  um tempinho de lado, as meninas esquecendo um pouco as heroínas da Disney e o conteúdo das salas invadindo livremente o espaço de liberdade do recreio.
Como temática para o processo artístico-pedagógico do segundo ano B foi escolhido o mesmo tema do projeto de sala, a poesia. Os desafios que vieram dessa escolha partiam do pressuposto de que seria importante trazer a poesia para a experiência corporal,de modo que dançá-la não se tornasse um ato de ilustrar ou imitar o seu significado.

A ideia era que os estudantes pudessem entendê-la através de outros meios que não o racional, estimulando os sentidos do corpo. Trata-se de uma escolha que aponta para uma das principais funções da dança na escola: tendo a nossa sociedade estabelecido uma vertical cisão entre mente e corpo – primando sempre pela primeira em detrimento da segunda, a dança surge como uma possibilidade de retomar a experiência corporal como meio de aprendizado em si, gerando uma profunda ampliação do que é e de como pode se dar o conhecimento.

Tecidos das texturas mais diversas foram espalhados pela sala e a pergunta que os estudantes  deveriam fazer para si mesmos era qual delas combinava mais com seu poema e porquê. Conversamos sobre suas percepções e aquilo que poderia parecer abstração demais para qualquer adulto, surtiu um lindo resultado na experiência da criança.

A almofada teria a ver com o poema porque as nuvens…Ah! Como as nuvens são macias,dizia o Felipe. Na próxima etapa os estudantes  improvisaram movimentos livremente, ou seja, a partir das sensações adquiridas pelos tecidos deixaram a inteligência do corpo agir criando formas, relaxamentos ou tensões, levezas ou pesos, rapidez ou lentidão, sempre a depender da textura experimentada e, consequentemente, de seu poema.

Selecionaram os movimentos que mais gostaram, repetiram, juntaram com mais dois de outros colegas e depois com mais quatro e eis que a coreografia lhes brotou como frutas do pé, às vezes azeda, às vezes doce como no poema, mas totalmente deles.

Como educadora que horizontalmente conduz as etapas de experimentação, escolha e composição (primando sempre pela autonomia de seus processos), me resta apenas colocar as perguntas certas, que em última instância terão o papel de refletir o processo artístico no mundo do qual fazem parte.  Se o “fio do tempo” da poesia é “fio fino que à toa escapa”*,o que valerá à pena tecer? E de surpresa e em uma imensa alegria, os vemos autônomos deixando o futebol, os heróis e heroínas dos filmes, a tecnologia e tudo aquilo que é veemente em suas vidas ficarem um pouquinho de lado, para que o corpo retome sua poesia em movimento e para que esse ato retorne para suas vidas em outros modos de existir, criar e transformar o mundo à sua volta de Henrique Lisboa.

* O Tempo é Um Fio, de Henrique Lisboa.

 

 

Tatiana Guimarães, Professora de dança do Ensino Fundamental