Jogos Simbólicos… Faz de conta que…

Jogos Simbólicos… Faz de conta que…

O exercício da autonomia, no jogo simbólico, é uma característica intrínseca a prática. Ao compartilhar momentos de convivência sem ter unicamente o adulto como condutor das ações, os alunos tornam-se protagonistas de sua própria aprendizagem.

Ofélia Fonseca

24 Abril 2015 | 09h21

  É muito comum escutarmos falas como essas durante as brincadeiras de nossas crianças. A princípio, podem passar despercebidas, apenas comentários comuns durante uma brincadeira infantil. Porém, trazem consigo diversas representações, analogias e compreensões dos nossos alunos sobre o mundo social que os cerca e suas tantas relações.

  Os jogos simbólicos ou, mais comumente, o famoso e simples faz-de-conta, possuem forte importância na formação social das crianças que através da imitação podem perceber a diferença entre o eu e o outro, aproximam o brincar da realidade por elas vivida dentro e fora do ambiente escolar e acabam, por assim dizer, enriquecendo suas identidades.

   Por meio dessas brincadeiras, as crianças tem a possibilidade de representar o mundo em suas cabeças, estimulando o pensamento imaginativo e representando corporalmente esse imaginário, o que vê e como interpreta o que a cerca. Segundo Adriana Klisys e Edi Fonseca (2008), “A imaginação (imagem em ação), amplamente estimulada no jogo simbólico, é uma capacidade que caracteriza o ser humano, que o diferencia das demais espécies. Figuras (imagem) de super-heróis, pais, profissionais e seres fantásticos são vivenciadas na atuação da criança em seu faz-de-conta (ação).”. Desta maneira, o brincar perpassa tanto o conhecimento de mundo quanto a formação pessoal e social.

   Com tudo isso em mente, como poderíamos favorecer esses momentos em nosso ambiente escolar envolvendo as crianças em todo o processo, desde a criação, montagem, organização até a vivência?

  Pensando nisso, propusemos para as crianças de Grupo 3 e Grupo 4 que montássemos nossos próprios kits de faz-de-conta utilizando sucatas trazidas de casa. Foram diversas contribuições, desde caixas de leite, biscoito, pasta de dente, frascos de shampoo, até teclados ou telefones não mais utilizados.

  A escolha dos materiais não foi aleatória. Nossa intenção, além de favorecer a ludicidade da prática, era também propor uma maneira de ressignificação do brinquedo, explorando possibilidades de reaproveitamento e transformação do objeto.

  Juntos, organizamos e classificamos os materiais trazidos. Incentivados a atuar autonomamente, os alunos precisavam pensar juntos e tomar decisões, se responsabilizando pelas escolhas e tendo eles mesmos e seus colegas como parceiros de troca e não só o professor.

  O exercício da autonomia, no jogo simbólico, é uma característica intrínseca a prática. Ao compartilhar momentos de convivência sem ter unicamente o adulto como condutor das ações, os alunos tornam-se protagonistas de sua própria aprendizagem.

  É a criança que decide como caminha seu imaginário, pode estar no mercado porque precisa comprar comida para a filha que está doente ou comprando ingredientes para um bolo. Os rumos da brincadeira e da aprendizagem acabam, assim, ficando muito mais nas mãos dos nossos alunos do que nas nossas. E essa mesma característica nos garante uma observação mais próxima das peculiaridades do grupo e identidades de cada criança.

“podemos dizer que a educação tem como um de seus objetivos integrar os pequenos de nossa comunidade à cultura do grupo a qual pertencem e permitir que dele participem. Podemos dizer que a escola é um dos instrumentos que a sociedade possui para transmitir os conhecimentos, o legado cultural de uma geração à outra” (BASSEDAS, 1999)

Marina Vieira Janotti Moreira
 Professora do Grupo 4

Bassedas, E.; Hughet, T.; Solé, I. Aprender e ensinar na Educação Infantil.
Porto Alegre: Artmed, 1999.

Klisys, A.; Fonseca, E. Brincar e Ler para viver: um guia para
estruturação de espaços educativos e incentivo ao lúdico e à leitura
.
São Paulo: Instituto Hedging-Griffo, 2008