Estudantes do 9º ano realizam estudo sobre racismo estrutural

Estudantes do 9º ano realizam estudo sobre racismo estrutural

Projeto teve como base o livro ‘O que é racismo estrutural’, de Silvio Almeida, e envolveu um grupo de estudos sobre o tema para a disciplina de Geografia.

Ofélia Fonseca

12 de julho de 2021 | 11h40

Durante o 2° bimestre de 2021, os estudantes do 9° ano, do Ensino Fundamental II, realizaram um grupo de estudos sobre racismo estrutural, para a disciplina de Geografia. O projeto teve como base o livro ‘O que é racismo estrutural’, de Silvio Almeida.

“Fizemos a leitura completa do primeiro capítulo do livro intitulado ‘Raça e racismo’ com a proposta de ampliar nosso repertório de teoria social para compreendermos de maneira mais profunda o racismo presente em nossa sociedade”, explica o professor Artur Attarian, de Geografia.

 

Confiram trechos de textos de respostas dos estudantes a respeito do tema

Escreva uma reflexão sobre as três concepções expostas pelo autor apontando para as diferenças entre as concepções de racismo individualista, institucional e estrutural, no capítulo ‘Raça e racismo’:

“A concepção de racismo individual seria aquela em que há uma relação estabelecida entre racismo e subjetividade, ou seja, a relação entre racismo e o indivíduo subjetivo que se relaciona com o mundo social. São atitudes racistas, que se manifestam principalmente pela discriminação direta, atribuídas a grupos isolados. Assim, essa concepção de racismo não inclui o racismo das instituições, mas sim indivíduos, sozinhos ou em grupos, racistas. Silvio Almeida também comenta sobre o uso desta concepção como base para estudos sobre o racismo, e que, quando analisamos o racismo só pela sua manifestação individual, não levamos em conta a história e, por sua vez, a estrutura racista que sustenta a sociedade, deixando de lado pautas importantes como seus efeitos concretos, e acabando por usar frases moralistas.

O racismo institucional parte da relação estabelecida entre racismo e Estado. Essa concepção, diferentemente da individual, não se resume a atos racistas isolados, mas ao funcionamento das instituições, aquelas em que as formas sociais (mercadoria, Estado, direito) são materializadas, que atuam com uma dinâmica de desvantagens e vantagens segundo a raça, principalmente de maneira indireta. As instituições normalizam os conflitos e antagonismos da vida social, orientando as ações do indivíduo e tornando-os sujeitos dentro de suas regras. Silvio complementa que as instituições moldam o comportamento humano, e que os conflitos não são eliminados, mas sim absorvidos por essa.

A última concepção exposta pelo autor é a de racismo estrutural, que parte da relação estabelecida entre racismo e economia. Silvio Almeida diz que a concepção de racismo institucional foi um avanço no estudo das relações raciais, mas que ainda persistem algumas questões. As instituições seriam apenas a materialização de uma estrutura social, ou seja, essas não criam o racismo, mas o reproduzem. Mesmo assim, é importante ressaltar que o reproduzem justamente por não tratarem como um problema a desigualdade racial. Assim, o racismo é uma decorrência da estrutura social. Os comportamentos individuais e processos institucionais decorrem de uma sociedade que tem o racismo como um modo normal de se constituir relações políticas, jurídicas e econômicas.” – Isabella Scalabrin

 

Faça uma reflexão sobre o trecho destacado e dê sua opinião sobre o problema da influência da pandemia nas novas formas de racismo: de acordo com o entrevistado, o racismo pode ganhar novas formas a partir da pandemia da Covid-19. Releia o trecho destacado, a seguir:

A doença é natural. A pandemia é uma organização para lidar com os efeitos mundiais ocasionados pela Covid-19. Ao mudar a organização política, econômica e até mesmo ideológica da sociedade, a pandemia acaba afetando também o funcionamento dos mecanismos de discriminação. Na hora de decidir se vai ter renda básica ou não, quem vive e quem morre, essas decisões serão racializadas. E também depois, acredito eu, e [o filósofo e historiador] Achille Mbembe também está dizendo isso, mesmo com fim da pandemia, a gente pode ter novas formas de controle policial baseadas justamente no medo que as pessoas vão ter de gente que pode estar infectada, que são as pessoas de países em que os níveis de infecção são maiores, países mais pobres e também onde vivem as pessoas não brancas. Como a pandemia muda o modo de organização da vida política, ela muda os mecanismos a partir dos quais a discriminação racial funciona. Portanto, eu digo: ela pode dar uma nova cara, mais brutal inclusive, para o racismo.

“Sem dúvida, a pandemia afetaria o racismo como afetou muitas coisas do mundo. Deve-se lembrar por exemplo, que na Alemanha, no início de 2020, houve casos de extremo-orientais que foram proibidos de entrar em certos lugares. Discriminações deste tipo podem, sem dúvidas, acontecer com outros grupos étnicos. Mas deve-se lembrar que na pandemia, líderes indígenas foram ouvidos com mais atenção, uma vez que esta pandemia, deriva da falta de harmonia com a natureza e os povos indígenas do Brasil são umas das etnias mais experientes em conviverem em equilíbrio com a natureza. Seus modelos de sociedade, poderiam durar infinitamente sem prejuízos. Além disso, ficou evidente que países pobres na África subsaariana lidam com mais eficiência com doenças novas que países ricos da Europa. No final de tudo, concordo que o racismo se modifique em parte para pior, mas também em parte ele diminua em certos aspectos.” – Leo Zanetti Salhab

 

Silvio Almeida afirma que a mulher negra é quem mais sofre com o racismo estrutural. Justifique essa afirmação a partir dos argumentos expostos pelo entrevistado no vídeo. Atente-se para o fato de o argumento de Almeida falar sobre os tributos pagos pela mulher negra nas mercadorias que ela consome, portanto para a forma como o Estado recolhe impostos através do consumo e relacione isso com a ideia de racismo estrutural:

“A mulher negra é histórica e atualmente posta no último nível da pirâmide social estruturalmente. Com todos os preconceitos e discriminações que sofre, seu grupo acaba sendo o que enfrenta mais desigualdades em muitos fatores. Um deles é o econômico, que vai envolver o pagamento de tributos. A mulher negra é a que mais paga tributos, pela posição social que está. Sendo a que na média brasileira ganha os menores salários, acaba pagando mais tributos, pois, assim como um homem branco rico (o que ganha o maior salário, em média), tem que consumir.

Tendo uma menor renda, a mulher negra também é colocada em situações de maior vulnerabilidade (também por todo um processo histórico existente no Brasil), tendo, muitas vezes, necessidades de consumo maiores.

Silvio Almeida, em sua entrevista, traz um dado importante: em um período de 10 anos, a violência contra a mulher branca no Brasil caiu 9,8%, enquanto a violência contra mulheres negras aumentou 54,5%. Esses dados mostram outro ponto importante da mulher negra em meio a sociedade, dizendo que há, sim, uma relação de poder racial e da posição social de alguém em comparação a outro indivíduo. Mulheres negras sofrem por serem negras em uma sociedade racista, mas também por serem mulheres em uma sociedade estruturalmente machista e misógina.

Foi-se habituado que as mulheres negras são mais atacadas, sim, mais violentadas e que pagam mais em seus tributos, porque, infelizmente, isso tudo é visto como um processo normativo.” – Amelie Sayumi

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