Como se dá a construção do conhecimento científico pela criança?

Como se dá a construção do conhecimento científico pela criança?

A partir do 2º ano, as aulas de Ciências podem contribuir para que o aluno construa ferramentas que o ajudem a apurar a sua observação dos fenômenos em busca do “saber experimentar”.

Colégio Ofélia

08 Abril 2015 | 20h18

      Da experiência à conceituação

     O que é trabalhar com a face cognitiva da experiência? Reconhecemos pelo menos dois significados diferentes para “experiência”: fazer experiências e saber experimentar. O primeiro se manifesta no plano concreto quando os alunos expressam suas representações implícitas (o que já observaram sobre o fenômeno). O segundo se manifesta num plano abstrato, o do procedimento experimental, no qual as representações são construídas e permitem substituir a experiência real pela experiência mental

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     A passagem de um para o outro não é simples. Muitas das experiências que propomos na educação infantil estão mais próximas do fazer experiências, nas quais os alunos se mostram entusiasmados pelo prazer da ação e do ensaio sem se preocupar com a investigação. A partir do 2º ano, as aulas de Ciências podem contribuir para que o aluno construa ferramentas que o ajudem a apurar a sua observação dos fenômenos em busca do “saber experimentar”.

     De acordo com o pensamento do biólogo e pensador Jean Piaget, é certo que o saber experimentar será desenvolvido pelos alunos a partir dos 10-11 anos, pois exige deles o pensamento formal que é necessário para antecipar hipoteticamente resultados, próprios do plano mental.

   Então, deve-se concluir que precisamos esperar a progressão dos estágios de desenvolvimento intelectual para que os alunos estejam prontos para saber experimentar? Mais vale retomar o ponto de vista de Vygostski , outro pensador do campo da educação, e considerar as práticas experimentais como motivação intelectual dos alunos para lidar na sua zona de desenvolvimento proximal, na qual ultrapassa suas possibilidades conceituais de momento, na medida em que as situações de aprendizagem se apresentem na interação com o professor e com o grupo.

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“O pensamento formal não surge quando eles estão a dormir
(aliás, nem todos os adultos têm imediatamente acesso a ele),
mas, pode ser estimulado através de atividades exigentes
mas acessíveis, por meio do esforço coletivo e individual”.
[1]

      O processo da conceituação

      Na busca pela compreensão do que se observou na atividade experimental, se inicia o processo de reflexão do aluno. É neste momento que ele toma consciência de suas próprias ações, procura uma explicação para o fenômeno observado e estabelece relações com o que pensava anteriormente. Como já se sabe, não é fácil para o aluno abrir mão de sua hipótese inicial. Por isso, é essencial que o tempo na sala de aula seja dedicado às discussões entre os alunos.

     Nessas conversas, comunicam o que observaram e desenvolvem argumentos. A princípio, podem fazê-lo apenas sob a forma de relato ou descrições de suas ações. Contudo, esta fase é importante para que estabeleçam, em pensamento, relações lógico-matemáticas e causais. Pensando no que fazem, estabelecem relações que, gradualmente, vão se desvinculando da sua própria ação sobre o objeto para observar as modificações físico-químicas que ocorreram com o objeto de estudo. Nessa passagem – das ações executadas pelo próprio sujeito para a relação entre os atributos do objeto – se inicia a conceituação.

Marilza Alberto Baptista
Professora do 4º ano do Ensino Fundamental

[1] ASTOLFI, Jean-Pierre, PETERFALVI, Brigitte e VÉRIN, Anne – Como as crianças aprendem ciências. Porto Alegre, Instituto Piaget , 1998 – P. 118