As sutilezas do período de adaptação na educação infantil

As sutilezas do período de adaptação na educação infantil

Entendemos que a adaptação das crianças pequenas em nossa escola deve ser feita gradualmente, com a presença dos pais em tempo integral durante a primeira semana. O processo precisa ser lento e gradual, respeitando o tempo de cada criança, de cada família, de cada pai, de cada mãe.

Colégio Ofélia

14 Abril 2015 | 18h10

“Nesta vida, pode-se aprender três coisas de uma criança:
estar sempre alegre, nunca ficar inativo
e chorar com força por tudo o que se quer.”
(Paulo Leminski)

       As lágrimas que escorrem dos pequenos olhos e o choro, contínuo ou parcelado, gritado ou soluçado, aflito ou mais contido, nos diz das manifestações mais legítimas que as crianças pequenas encontram para comunicar a sua entrada no mundo. Não nascemos prontos, estamos o tempo todo nos deparando com situações novas e desafiadoras, angustiantes e que, por isso, podem gerar inseguranças e medos. Desse modo, sair do seio familiar e entrar em um universo novo (a escola) encontrar outros adultos (o professor-referência) em que possa confiar, reconhecer outros espaços e se reconhecer enquanto parte de um grupo, constitui o que chamamos de período de adaptação. Neste período a relação composta na tríade famíliaescolacriança é muito fundamental. É preciso que os pais estejam seguros em deixar seus filhos na escola, que as crianças possam sentir essa segurança vinda de seus pais e do professor que irá recebê-los, assim como, que a escola seja um ambiente acolhedor e encantador.

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       A adaptação precisa ser lenta e gradual, respeitando o tempo de cada criança, de cada família, de cada pai, de cada mãe. Assim, esse processo acontece em um tempo indeterminado, com avanços e retrocessos. Muitos estudos vêm sendo feitos, desde a década de 1950, na França (com David e Appel) e no Reino Unido – Bowlby (1953) e Mary Ainsworth (1974), além de uma série de filmes de James Robertson – que retratam as reações das crianças pequenas quando separadas dos adultos queridos. Estas reações podem começar com a perplexidade, choro desconsolado, protestos violentos, até momentos de apatia e ausência de fome. Desse modo, podemos entender a partir das contribuições de Elinor Goldschmied e Sonia Jackson (2006), que as crianças são pequenas demais para compreender a complexidade da categoria tempo. E o que parece um período curto para um adulto, pode significar para uma criança a sensação de abandono definitiva.

       Por estas razões, entendemos que a adaptação das crianças pequenas em nossa escola deve ser feita gradualmente, com a presença dos pais em tempo integral na escola durante a primeira semana. No primeiro dia, as crianças permanecem na escola por uma hora. No segundo dia, duas horas e assim sucessivamente. Na nossa experiência deste ano, as reações foram diversas, algumas crianças foram mais resistentes à aproximação, outras se encantaram rapidamente com os espaços da escola. Algumas choravam compulsivamente, outras gritavam, outras tinham choros curtos durante todo o dia. E também teve aquelas que, mesmo desconfiadas, estavam mais seguras e manifestaram de outros modos seu estranhamento com a chegada à escola.

       Nesse momento, as crianças precisam da chupeta, do paninho, do urso de pelúcia ou qualquer outro objeto de apego que seja significativo e lhes dê segurança. O colo pode ser o lugar de conforto e, aos poucos, podem superar e seguir de mãos dadas. Os lugares que trazem elementos conhecidos pelas crianças também são importantes estratégias, como nos foi o tanque de areia. As crianças não conhecem a escola, mas conhecem a areia de suas andanças por outros parques e viagens, isso gera uma sensação de bem estar.

       Os pais esperavam as crianças na biblioteca da escola, de modo que as crianças sabiam que eles estavam lá, esperando por eles. Quando o choro ficava muito intenso, nossa estratégia era caminhar até a biblioteca passando por lugares como o tanque das tartarugas, procurando transformar o novo angustiante, em novo encantador. E de fato assim se fez. Entre a nossa sala e a biblioteca, as tartarugas foram tão acalentadoras quanto o colo e um abraço.

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       Nessa semana de adaptação, nas andanças chorosas pela escola, houve momentos em que tudo ocorreu bem e outros em que nada parecia dar certo. Mas, é juntamente nesse lugar de perdas e ganhos que o vínculo com as crianças e as famílias foi se estabelecendo, de modo que as crianças passaram a entender que conhecíamos seus pais, sabíamos onde eles estavam e como encontrá-los quando fosse necessário.

       Ainda que tenha uma semana destinada à adaptação, ela não terminou ali. A segunda parte da adaptação começou quando os pais não estavam mais na escola. Momento em que nossa rotina começou a se configurar de maneira acolhedora e divertida, com histórias, brincadeiras, arte, música, entre outros momentos e atividades. Os choros de entrada passaram a ser mais curtos, até que se findaram totalmente. As crianças que se sentiam mais seguras passaram a acolher as que ainda estavam inseguras, dizendo: “calma, está tudo bem!”. E o vínculo das crianças conosco, com as crianças e com os outros adultos da escola foi se estabelecendo.

       Hoje, passados dois meses, as crianças circulam com autonomia pela escola, correm e pulam, reconhecem os outros professores e funcionários da escola e todas as crianças do grupo pelo nome. No entanto, a adaptação da vida ainda não terminou! Situações novas e de mudança virão (como o desfralde, deixar a chupeta, a entrada ou saída de uma criança do grupo…) e essas situações precisam de toda a nossa atenção e cuidado, pois se olharmos a sutileza dos choros, da angustia e dos medos desde a primeira infância, certamente, estaremos mais preparados para a vida que é cheia desses lugares, gentes e situações novas…

Lays Pereira
Professora do Grupo I da Educação Infantil