Abrindo a grade curricular… É só o começo!

Abrindo a grade curricular… É só o começo!

Um processo que se faz urgente na educação brasileira: A desfragmentação do saber! Como isso se dará? Com grandes mudanças na instituição Escola.

Colégio Ofélia

31 Março 2015 | 16h52

Os estudantes do Ensino Médio se encaminham para as salas autonomamente, porque não temos sinal, vão à aula de Política e Sociedade com os professores de história e filosofia, que planejaram juntos os conceitos que provocarão os estudantes a pensarem.

Enquanto outro grupo caminha para a aula de Ciências Naturais, com os professores de biologia, física e quimica que planejaram conjuntamente o encontro para discutirem conceitos e fenômenos das ciências naturais, por exemplo, energia”

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As últimas notícias vindas da Finlândia reafirmaram nossa experiência no colegio Ofelia e nos inspiraram a dividir o caminho que estamos fazendo com todos vocês…

O que temos de novo na situação descrita acima?

Um processo que se faz urgente na educação brasileira: A desfragmentação do saber!

Como isso se dará? Com grandes mudanças na instituição Escola.

A começar pela estrutura das DISCIPLINAS e na GRADE CURRICULAR. Grade? Não é possível que um educador no século XXI não se questione sobre este nome dado à forma de organizar os saberes na escola! Grade: prende, limita, controle, impede. Saber: liberta, amplia, possibilita!

Simultaneamente, outra mudança e reflexão se fazem necessárias, o FOCO dos planejamentos dos educadores, que não seria no que o educador tem para ensinar, e sim, em como o estudante aprende e pensa.

Parece óbvio e simples, mas não é…

Nós do Ofélia começamos com pequenas mudanças, introduzindo o trabalho interdisciplinar, o que nos assegurou uma forma de organizar o currículo que são os projetos, tivemos respostas muito boas dos estudantes, que sentiam que os conteúdos tinham sido bem apropriados por eles, além de muito mais envolvidos e participativos.

Discutimos muito, analisamos, fizemos autocrítica e percebemos que poderíamos dar um passo para a frente…

Vieram as aulas conjuntas, o nosso compromisso enquanto equipe foi de que todos deveriam elaborar e executar, no bimestre, por pelo menos uma aula conjunta. Tivemos resultados ótimos, outros um tanto artificiais. Refletimos muito em equipe, sobre o que estava envolvendo e oportunizando o aprendizado, e o que era só “para inglês ver”… Estudamos, discutimos, ouvimos os estudantes, observamos as aulas, os educadores, seus fazeres, e percebemos que, se por um lado as aulas conjuntas eram insuficientes para não fragmentar o conteúdo, por outro elas ajudavam a integrar e visualizar o todo, e que precisávamos continuar o caminho das mudanças… precisávamos quebrar as grades, mudar o olhar, o foco!

Foi então que, neste ano, iniciamos o trabalho com as áreas: no lugar de duas ou três disciplinas dividindo o conhecimento, teríamos áreas, um grande espaço com diferentes pontos de vista para construirmos conceitos e saberes, discutirmos fenômenos…

Estamos no começo, o que temos é a coragem, muitas dúvidas e algumas certezas…

A certeza é de que esta nova forma de organizar a escola veio para inverter a lógica da sala de aula, quebrar os mecanismos de submissão e controle de pessoas e conhecimentos, e corrigir os desvios que cometemos durante a história da escola.

Os desvios…

Desviamos a curiosidade, o interesse, a magia da construção do conhecimento quando o que nos importa é a resposta que o aluno dá, e não qual a pergunta que ele se fez ao aprender.

Desviamos… quando estamos mais preocupados em explicar para o estudante aprender, do que em entender como o estudante pensa ao apreender um conceito.

Desviamos quando o estudante deixa de pensar e se conscientizar no que (conceito) e como ele aprende para pensar em quem ensina e o que responder a que ensina.

Desviamos quando o educador pedagogiza o fenômeno, planeja estratégias que mais afastam do que aproximam os estudantes do movimento do pensar!!

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As certezas…

A certeza de que as novas áreas vieram para abrir o espaço ao pensamento e seus processos, esse é o movimento destas aulas, escutar os estudantes, dar o espaço para que eles se encantem com o novo conhecimento, com os fenômenos naturais, sociais, e linguísticos que estão tentando compreender. À medida em que o educador dá espaço para um estudante expressar o seu pensamento, há muito mais envolvimento de quem expressa, e os outros estudantes estão aprendendo também!!

Temos a certeza de que dois ou três professores em sala com um grupo podem provocar muito mais do que um, são formas de interferir e se relacionar com dúvidas e saberes diferentes, que se complementam. E ajudam os estudantes a focar não naquele professor ou disciplina, mas no que estão discutindo.

Temos a certeza de que o planejamento conjunto já traz uma forma integrada de pensar os conceitos e mobilizar aprendizagens.

Temos a certeza de que, para os educadores, é uma experiência de formação contínua. O aprendizado na experiência e observação na prática, se ouvindo, se relacionando com o saber do outro, se conectando com o pensamento do outro, é riquíssimo para os educadores e para os estudantes… É um exercício de “ser” no coletivo, de “ser” na relação e na aprendizagem, pouco visto na história da escola!

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É só o começo, temos muito o que desconstruir, construir e reconstruir… Temos muito para mudar. Mudanças verdadeiras a serviço do estudante, do pensar, do saber, do se relacionar, e não a serviço de políticas e economias!

Fica aqui o convite do colégio Ofelia para todas as escolas, educadores, estudantes e famílias que tiverem experiências semelhantes que publiquem, para ampliarmos as nossas experiências e a reafirmarmos a urgência da mudança!

Solange Souza
Coordenadora Pedagógica