A África nossa de cada dia

A África nossa de cada dia

Um dos maiores desafios enfrentados nas atividades de campo é promover experiências significativas.

Ofélia Fonseca

21 Junho 2017 | 20h49

Entre os dias 16 e 18 de maio, o grupo do 8º ano do Colégio Ofélia Fonseca realizou um Estudo de Meio no Vale do Ribeira, mais especificamente nas comunidades quilombolas de Ivaporunduva, Sapatu e André Lopes, além de uma visita na Caverna do Diabo.

Um dos maiores desafios enfrentados nas atividades de campo é promover experiências significativas. Dizendo de outro modo, podemos nos deslocar no espaço, mas caso não estejamos disponíveis, não seremos afetados pelos acontecimentos que iremos vivenciar. Saímos de São Paulo com o desafio de vivenciarmos situações inusitadas, que pudessem alterar sentidos e transformar percepções habituais sobre a presença da cultura africana em nosso cotidiano.

Para despertar e estimular o olhar, os estudantes do 8º ano haviam visitado previamente o Museu Afro e escolhido obras que lhes tivessem chamado atenção. Em seguida, relacionaram as obras escolhidas a diferentes aspectos de suas vidas. Ainda como atividade preparadora, o grupo apreciou vídeos debatendo a contribuição da cultura africana no passado e no presente da sociedade brasileira, além de ler um texto sobre distintas posturas possíveis de um viajante: afinal, quando se viaja se busca o olhar de um turista ou a experiência de um peregrino?

Após atravessarmos a escarpa da Serra do Mar e seguimos ao sul pela BR-116, pelo pouco que nos restou de Mata Atlântica, chegamos ao Vale do Rio Ribeira de Iguape e nos instalamos no Quilombo de Ivaporunduva, a “capital” dos quilombos brasileiros. Lá, de dentro de uma igreja construída no século XVII, debatemos o papel da religião na formação das comunidades da região. Guiados por um casal de moradores, andamos pelas ruas do quilombo, fizemos amizades, jogamos futebol, colhemos frutas em pomares, conhecemos a cultura orgânica da banana, observamos as casas de pau a pique, visitamos o cemitério centenário, montamos armadilhas de caças ouvindo histórias da infância de quem cresceu e viveu longe das cidades, perto das matas, nas curvas e abrigos do rio.

Na manhã seguinte, visitamos o quilombo de Sapatu, uma comunidade que ainda almeja receber a titularidade de suas terras. Fomos recebidos por lideranças do lugar que relataram as ameaças enfrentadas pela comunidade que, por viver à margem da rodovia e do Rio Ribeira de Iguape, está sujeita aos desabores e surpresas de projetos que disputam as riquezas da região. O Rio Ribeira de Iguape, o terceiro em volume do Estado de São Paulo, é o último rio paulista a correr livremente, sem barragens. Às suas margens, fomos convidados a exercitar nosso silêncio e ouvir a “alegria das águas que correm soltas”, nas palavras do Sr. João, águas que estavam particularmente brilhantes sob a luz do sol daquela manhã. Após colhermos inhame e chuparmos cana, preparamos um belo almoço na casa de Dona Esperança, a matriarca do lugar.

Por fim, seguimos para André Lopes. Nesse quilombo está localizada a Caverna do Diabo, atividade turística de maior atração da região. Não por acaso, debatemos o impacto do turismo na região, o modo como as comunidade tem se organizado para conviver com os visitantes e manter seu modo de vida. Foi cuidadosamente conversado sobre o modo de plantação agroecológico, a maneira como essa prática de plantio busca preservar a biodiversidade existente na região, podendo dessa forma conviver com as Unidades de Conservação que formam o chamado Mosaico do Jacupiranga. Terminamos a prosa indo a um pomar, colhendo mexericas, descascando e comendo laranjas, preparando um café da tarde com a garapa que preparamos na moagem antiga de cana.

No último dia, nos despedimos do lugar realizando a trilha do Vale do Rio das Ostras, conhecendo uma das maiores cachoeiras do Estado e debatendo dentro da Caverna do Diabo, quais os princípios que orientam a criação dos diferentes tipos existentes de Unidades de Conservação na região. Afinal, quando a ação humana pode conviver de maneira integrada ao ambiente? Qual o tipo de progresso que queremos para a região? O que podemos aprender com o modo de vida dos quilombos? Quais são as práticas e modos de vida que não podemos deixar que desapareçam, mesmo que estejam ameaçados? Essas e outras perguntas ecoaram em diferentes momentos da viagem e fizeram esse jovem grupo de moradores da cidade pensarem sobre quais impactos produzimos com nosso modo de vida urbano. Além disso, qual África participa diariamente de nossas vidas e colabora para sermos exatamente o que somos. Essa desconhecida África nossa de cada dia.

Profº Eder Camargo
Geografia Ensino Fundamental