O uso da Biomimética na Educação Infantil

O uso da Biomimética na Educação Infantil

Natália Venâncio

23 de julho de 2020 | 15h45

Que tal explorar junto com os alunos os aprendizados da natureza?

*Carlos Walter Dorlass e Rosana Marin

A natureza pode ser nosso grande mestre. Mas é preciso desenvolver olhos e ouvidos no coração da criança. Observá-la, aprender com ela e imitá-la não são novidades. Desde Goethe e sua crença na harmonia inseparável entre homem e natureza e no paralelismo da natureza com a arte, tão bem descrito no livro “A metamorfose das plantas”, diversos cientistas, inventores e artistas incorporaram a arte de contemplar as soluções que o planeta encontra para os seus diversos desafios.

A Biomimética vê a natureza de três perspectivas distintas: como um modelo (estudar os modelos da natureza e imitá-los ou usá-los como inspiração, com o intuito de resolver os problemas humanos), como uma medida (usar o padrão ecológico para avaliar a relevância e o benefício das nossas inovações. Após bilhões de anos de evolução, a natureza descobriu o que funciona, o que é mais apropriado e o que mantêm) e como uma mentora (nova forma de observar e avaliar a natureza. Preocupar-se não no que podemos extrair do mundo natural, mas no que podemos aprender com ele).

A partir desses três pontos, fica claro que a Biomimética propõe uma verdadeira revolução nas relações que nutrimos com o ambiente.

Frequentemente as crianças sabem mais sobre isso do que nós, adultos, pois elas não perderam a destreza da observação. É o caso de Boyan Slat, um jovem que se alicerçou nos giros oceânicos que estudara para inventar uma nova forma de coletar lixo marítimo. Uma possibilidade é estimular os educandos a criarem projetos de aprendizagem que se abasteçam da Biomimética para resolver as questões que mais lhes preocupam.

Crianças exploram o mundo à sua maneira, em busca de conhecer, integrar-se, interagir, sentir, experimentar e, ainda que se utilizem de ações que aos nossos olhos parecem repetitivas, para elas, sempre trazem novos elementos e possibilidades, enquanto essas ações lhes fizerem sentido.

A natureza é um rico universo de aprendizagens. Por ser um espaço prazeroso e misterioso, é natural que desperte na criança a alegria de pertencer e cuidar dele, aprendendo sobre sustentabilidade, ciclo de vida, origem dos elementos, cuidado, respeito, amor, cooperação, colaboração, resistência, persistência, solidariedade e resiliência.

A escritora de Ciências Naturais Janine M. Benyus defende, em seu livro “Biomimética: Inovação Inspirada pela Natureza”, que esta busca vem contra a tendência moderna de dominar ou melhorar a natureza, e se mostra como uma verdadeira revolução na interação Homem e Meio ambiente.

Compreende-se, portanto, que a natureza constitui-se de um importante meio para o desenvolvimento infantil em todos os aspectos (físico, emocional, social, cognitivo e espiritual). Observá-la é um exercício estratégico, pois nos seus elementos é possível encontrar grandes soluções para problemas que afligem a humanidade.

A natureza pode ser nosso grande mestre, mas é preciso observar. Para insetos sociais, por exemplo, o trabalho em equipe é predominantemente auto organizado. Coordenados principalmente através das interações de membros individuais da colônia, os insetos podem resolver problemas complexos, embora cada interação seja muito simples.

A Biomimética é uma área multidisciplinar e por isso pode contribuir para diversos campos do saber. Sua lógica é considerada totalmente inversa à da exploração, pois acredita que a natureza deve ser consultada observada e não apropriada ou domesticada. Isso é um reforço fantástico na ideia de eficiência e sustentabilidade.

Sob essa ótica, é possível refletir: há forma mais didática de se aprender sobre ciclo de vida do que a oportunidade de observarmos o nascimento, crescimento e morte de um girassol, por exemplo? Seu ciclo dura cerca de 12 meses, a partir do plantio das sementes e mesmo quando a flor parece esgotada até mesmo para enfeitar o jardim com sua graça e beleza, lá estão novas sementes que darão vida a novas flores.

Se nos ambientes urbanos encontram-se os elementos mais definidos, prontos (brinquedos, objetos, entre outros), nos ambientes naturais pode-se mais livremente dar asas à imaginação, por exemplo, olhando um graveto e imaginando que ele é um barco para viajar sem limites.

A natureza é um rico espaço que também alimenta o imaginário infantil e favorece à criança criar e ressignificar  brinquedos e brincadeiras. Um espaço que lhe traz elementos que podem se transformar no que ela desejar – pedras, folhas secas, flores, sons, terra, insetos – favorecendo brincadeiras mais criativas, interessantes e cooperativas.

A riqueza de possibilidades é tão intensa que, mesmo nesses tempos de distanciamento social, é possível explorar oportunidades que naturalmente façam parte do ambiente da casa, como plantas na varanda ou no quintal.

Então pare! Olhe ao seu redor. Qual foi a última vez que você efetivamente parou e observou como as coisas acontecem na natureza?

*Prof. Carlos Walter Dorlass é Diretor Geral do Colégio Marista Arquidiocesano.

*Profa. Rosana Marin é coordenadora de Educação Infantil do Colégio Marista Arquidiocesano.

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