O som de uma geração – o HIV e os anos 80

O som de uma geração – o HIV e os anos 80

Yolanda Drumon

20 Junho 2016 | 12h34

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 Um alvoroço se forma em um dos corredores da escola, um grupo de alunos conversa freneticamente sobre algo que está para acontecer. Enquanto isso, outros estão se “fantasiando” com roupas que lembram outra época, mas que certamente não pertencem ao cotidiano deles – a aula de laboratório de Biologia da 2ª série do Ensino Médio vai começar e o tema é AIDS/HIV.

Acompanhando o frisson inicial de preparação, entramos na “sala de aula”. Todo o espaço foi adaptado para recriar o cenário de uma festa/casa dos anos 80 do século XX. Em um dos cantos, um videocassete e uma TV de tubo exibem o filme “Cristiane F.”, em outro, uma vitrola com LP’s de cantores, bandas e novelas do mesmo período, além, é claro, das inesquecíveis (para quem é dessa época) fitas cassete gravadas em casa e anotadas à mão.

Uma projeção com videoclipes de bandas e cantores dos anos 80 e 90 que, junto aos tapetes e almofadas espalhados por todo ambiente, compõem um cenário que traria saudosas lembranças aos pais desses meninos e meninas que estão prestes a submergir neste universo.

Ao entrar na sala, cada aluno recebe uma carta de baralho e uma fita colorida, aleatoriamente vão, um a um, recebendo sua composição sem saber a finalidade do material recebido, é neste ponto que se revela a simulação – “Vamos recriar um cenário virtual de convivência e transmissão do HIV entre o público jovem dos anos 80 e 90”, diz o professor responsável pela disciplina. A partir do momento dessa distribuição, são dados os diferentes matizes comportamentais (tabelas 1 e 2) que compõem o quadro de convívio social simulado: cores representam orientações sexuais específicas, naipes de baralho uma situação de soropositividade para o HIV e o número das cartas o mínimo de parceiros a se estabelecer “contato sexual” durante a atividade. Pronto, novo alvoroço foi criado!

Os alunos, durante a aula, devem seguir a orientação sexual sorteada, independente do gênero ou da orientação sexual que realmente exercem. Neste momento, alguns são colocados em uma situação que raramente vivenciam: como minha sexualidade é vista pelos meus pares quando representativa de um comportamento minoritário? Questões sobre preconceito, tolerância e respeito às diferenças são colocadas à mostra no momento em que as simulações de relacionamento vão se desenvolvendo.

A vivência tem um ritmo próprio, organizada a partir da análise de uma série de vídeos que repassam o cenário do comportamento jovem e de alguns de seus ídolos contaminados pelo HIV, destacando-se dois deles, Cazuza e Freddie Mercury. Os alunos assistem a um vídeo e depois são estimulados a se relacionar “sexualmente” durante os intervalos entre os vídeos, novamente cria-se uma situação inusitada: Que regras vão simular a contaminação pelo HIV nestas “relações sexuais” simuladas? Jogar o dado foi o método escolhido.

De acordo com um resultado numérico específico (tabela 3), o aluno descobre se foi contaminado ou não pelo HIV durante a “relação sexual”. Os valores numéricos escolhidos para cada orientação sexual majoritária do casal são baseados em fatores como: uso de preservativo, chances de contaminação por HIV e percentual de dispersão do HIV segundo estudos científicos atuais. Posteriormente, analisando o impacto que as diferentes “relações sexuais” têm sobre a dispersão do vírus HIV na população, o estudante passa a refletir sobre a necessidade do uso de preservativos e como determinados comportamentos são mais arriscados do que outros.

A cada vídeo assistido, um novo comportamento da juventude dos anos 80 é observado ou o impacto da AIDS sobre a vida de ídolos do rock dessa geração é assistido; nos intervalos, novas relações são feitas e, de tempos em tempos, são anotados os “mortos”, os “contaminados” e até os que “adoeceram”. De repente uma percepção toma conta de todos, daquele grupo que iniciou a simulação, poucos sobreviveram. A AIDS devastou aquele grupo de jovens sedentos de liberdade, desprotegidos e ignorantes quanto à doença que os cercava. Assim, uma juventude que não convive com o impacto da AIDS, como foi nos anos 80, passa a entender a importância desse passado para viver um presente mais seguro.

Muitas questões são levantadas durante a atividade: preconceito, estereótipos, aceitação das diferenças, responsabilidade sexual, dispersão de doenças, os dramas públicos e privados causados pela AIDS, mas o mais importante talvez seja transportar esses meninos e meninas para outra época, por um breve espaço de tempo, o suficiente para perceberem que, por não terem um passado de vivência com o pior do HIV, podem trazê-lo de volta em um futuro próximo, simplesmente por desconhecerem o perigo que correm ao subestimarem um inimigo que insiste em permanecer oculto.

Por Leandro Alcerito, professor de Biologia do Ensino Médio do Colégio Marista Arquidiocesano