“Não mude de cidade, mude a cidade”

“Não mude de cidade, mude a cidade”

Natália Venâncio

04 Novembro 2015 | 07h17

O título da reportagem foi extraído de um dos manifestos elaborados no projeto Órbitas Urbanas, no qual alunos da 2ª série do Ensino Médio do Marista Arquidiocesano vivenciam um trekking urbano pela região central, ressignificando sua relação com a cidade.

Constituindo a parte final da ação pedagógica, os alunos fazem manifestos e criam painéis com grafites, inserindo desenhos e textos, resultados da vivência que tiveram no Centro Histórico de São Paulo. A partir daí, convidados especiais participam de uma mesa redonda para discutir propostas políticas e sociais dos alunos Maristas.

Como é de praxe, o encerramento do projeto contou com música de abertura (“Não existe amor em SP”, de Crioulo) a partir da participação de alunos e de professores no Salão Nobre. A mesa debatedora contou com a Profa. Dra. Regina Rizzo Ramires, graduada e mestre em Geografia pela Universidade de São Paulo (USP), o Prof. Dr. Luiz Carlos Menezes, professor sênior do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) e consultor da Unesco, o jornalista Thiago Tanji, editor da revista Galileu,  Alexandre Piero, coordenador de administração e finanças da Secretaria de Cultura da Cidade de São Paulo e  Juliana Cardoso, vereadora do PT (Partido dos Trabalhadores) e militante do movimento popular.

Manifestos

Ora os alunos eram convidados a ler seus manifestos ou cartas autorais, ora os convidados comentavam as observações dos alunos. Os temas que chamaram a atenção dos Maristas foram bem diversificados, passando pelos moradores de rua (“…o governo não tem olhos para os moradores de rua, eles são invisíveis”), pela questão da violência x falta de segurança (“A situação de São Paulo é anárquica, sendo marcada pela violência, insegurança, morte de policiais, guerra civil, abusos no metrô…”), pelo problema de falta de moradia (“…Observamos as ocupações e habitações irregulares, pudemos conhecer moradias e notamos que são trabalhadores que sustentam suas famílias…”), pela questão de gênero (“…Muitas pessoas são negligenciadas, agredidas, como os transexuais. Como diz a música, ‘Narciso acha feio aquele que não é espelho’ … essas vozes precisam ser ouvidas”), entre outros assuntos.

O Prof. Dr. Luiz Carlos Menezes comentou que, ao observar os cartazes sendo carregados nas ruas – antes do encerramento no Salão, os estudantes percorreram os arredores do Colégio mostrando os cartazes elaborados no Órbitas -, ficou emocionado. “O convívio no pátio me alegrou na finalização dos materiais, dando-nos um sentido de protagonismo e participação. O Órbitas foi apropriado e um projeto educativo só é real quando é incorporado. A escola é uma comunidade de trabalho. O aluno está trabalhando, trata-se de um trabalho de intervenção”, declarou.

Segundo o consultor da Unesco, ainda há esperança e o projeto chama atenção para coisas que estão naturalizadas. “Os meninos olharam para realidades como a do crack em São Paulo, situações em que o ‘lixo humano’ se mistura com o lixo urbano. Um dos cartazes mostrou os seguintes dizeres: ‘Não é porque você não me vê que sou invisível’. O homem placa é invisível, os funcionários da limpeza terceirizados são invisíveis. Essas pessoas são como móveis e utensílios. Cada cartaz mostra um jovem que não se acostuma com essa realidade, cada cartaz tira um calo da cidade”, arrematou Menezes.

A vereadora Juliana Cardoso comentou que além de “estar” vereadora, ela é militante dos Direitos Humanos. “Temos que procurar fazer a diferença para termos uma sociedade mais justa. Não bastam boas notas na escola, é necessário observar e modificar a realidade da comunidade, das sociedades, dos indivíduos e das políticas públicas. Temos um papel, não vamos conseguir mudar o mundo, mas podemos mudar o mundo onde estamos”, afirmou resoluta. Segundo a vereadora, para lidar com o ser humano é preciso enxergá-lo, olhar no olho de uma pessoa, ter sentimentos por ela. “Provocando” a plateia, Juliana Cardoso lançou as seguintes perguntas: “O que vocês entendem por segurança?”, “O que é política?”.

Quanto à questão da neutralidade, o jornalista da revista Galileu (Editora Globo) Thiago Tanji comentou sobre a cobertura da imprensa, sobre a importância de coletar histórias dos bairros e de abranger grandes temas da cidade. “A apuração de vocês é exemplo de jornalismo”, afirmou.

“É importante ampliar os olhares em todas as áreas. O que mais vale é o exercício do olhar, de se posicionar politicamente, mais do que lidar com a situação propriamente dita. O que precisamos saber, de fato, é o que o poder público já está fazendo para não repetirmos o óbvio e/ou o que já está sendo feito”, declarou a Profa. Dra. Regina Rizzo Ramires. A professora também ajudou a promover reflexões, jogando perguntas para os estudantes. Algumas delas: “Qual o significado de centralidade? Por que no centro? Por que neste centro? Por que os calos sociais estão no centro? Poucas pessoas moram de fato no centro. Por que a concentração dos moradores de rua está no centro?”.

E o último dos convidados foi Alex Piero, representante da Secretaria de Cultura da Cidade de São Paulo. Piero afirmou que a cidade de São Paulo é extremamente desigual e estabeleceu um diálogo muito próximo com os alunos: “Vocês já ouviram falar da Pirâmide de Maslow? Ela estabelece as necessidades humanas. Na base da pirâmide, temos a parte fisiológica (comida, água, respiração, sono, etc.) e subindo temos segurança, aspecto social, autoestima e no ápice está a realização pessoal – muito importante! A conclusão a que chegamos é que temos outras necessidades para além da sobrevivência. Porque a gente não quer só comida…”, disse no Arquidiocesano.

“O mercado de trabalho e o poder público são mais do que passar na prova. O que faz a diferença são espaços como esse. O que vale é ter um olhar diferente para a sociedade”, finalizou. IMG_8680 IMG_8765 IMG_8788 IMG_8846 IMG_8854 IMG_8876 IMG_8924 IMG_8925 IMG_8930 IMG_8975 IMG_9017 IMG_9025 IMG_9055 IMG_9084 IMG_9095