Escola, lugar de pensamento plural

Escola, lugar de pensamento plural

Paulo Adolfo

17 Abril 2017 | 17h40

2° Seminário de Direitos Humanos e Educação reúne 500 educadores no Colégio Marista Arquidiocesano

No sábado, dia 8 de abril, aconteceu o “2º Seminário Marista Direitos Humanos e Educação”, organizado pelo Colégio Marista Arquidiocesano, Colégio Marista Glória e pelas 4 Unidades Sociais Maristas de São Paulo – Centro Social Marista Ir. Justino, Centro Social Marista Ir. Lourenço, Centro Social Marista Itaquera e Centro Social Marista Robru. O evento teve apoio da FTD Educação e da Derc (Diretoria de Colégios da Rede Marista) e contou com a presença de cerca de 500 participantes, entre educadores Maristas e de outras instituições públicas e privadas de outros estados do Brasil, representantes do Conselho Tutelar da cidade de São Paulo, entre outros. “Desde 2013, temos o Grupo de trabalho de Direitos Humanos no qual discutimos questões centrais que contemplam as crianças e os adolescentes. Encontros como esse são de suma importância para a formação de professores para aproximar escolas de públicos distintos, diminuindo as diferenças”, afirmou Valentin Fernandes, Diretor do Colégio Marista Arquidiocesano.

Diversas apresentações marcaram o sábado e a primeira delas foi proferida pelo Ir. Vicente Sossai Falchetto. Com 39 anos de vida Marista, Irmão Vicente falou sobre a “Convenção Internacional dos Direitos Humanos”, sobre a necessidade de “sairmos dos nossos espaços, pois eles são muito seguros, sobre o papel do jovem Montagne em relação à missão Marista, sobre o contexto da criação da Fundação Marista de Solidariedade”, entre outros assuntos importantes.

A Profa. Dra. Heloisa Buarque de Almeida (FFLCH/USP) ministrou palestra sobre “Educação, identidades e diferenças: gêneros e sexualidades”. O tema foi escolhido para ser discutido no Seminário porque questões referentes à raça, etnia, origem e lugar, posição social, nacionalidade, religiosidade, geração, relações de gênero e sexualidade encontram-se sempre nas discussões curriculares e nas decisões pedagógicas.

A Professora Heloisa definiu gênero como uma convenção social, um pensamento naturalizado, e esclareceu que, a partir das Ciências Sociais, é possível concluir que a diferença humana é grande e o que é estritamente biológico define muito pouco as coisas. Mencionou, também, que o ser humano produz cultura e que a cultura não está no gene. Exemplo: a bipedia foi alcançada graças a treino e não a uma condição intrínseca.

A especialista apresentou uma pesquisa em que mostrou modos de vida em tribos da Nova Guiné na década de 30 e em três sociedades tribais e os papeis femininos e masculinos não eram atribuídos, respectivamente, a mulheres e homens. Por vezes, homens eram afetivos, por outras, mulheres agressivas. Segundo ela, a desigualdade não está no corpo, a desigualdade é social.

“Pedagogias culturais, mídias e currículo” foi o tema da Profa. Dra. Marisa C. Vorraber Costa (FACED/UFRGS). A professora refletiu sobre as transformações pelas quais a escola vem passando, sobre “como aprendemos e como ensinamos”, sobre a igualdade e desigualdade em educação, sobre a nova condição do professor de olhar os alunos em sala de aula em um tempo instável, sobre as conquistas nessa área (“As políticas culturais de gênero e cultura tornaram-se importantes conquistas”) e sobre as transformações na Pedagogia.

A professora da UFRGS sugeriu extensa lista de referências bibliográficas e exibiu um vídeo extremamente interessante da CCE Benjamín Carrión (La Casa de La Cultura Ecuatoriana Benjamín Carrión), cuja tônica é defender a ideia de que a cultura é o eixo transversal de toda a transformação social e que faz críticas à sociedade de consumo e às políticas assistencialistas.

Na sequência, o Prof. Dr. Marcos G. Neira (FE/USP) falou de “Multiculturalismo e práticas em educação”. Marcos contextualizou o público, falando um pouco sobre a abertura das vagas das universidades em decorrência da mudança das leis de segregação racial na década de 1960 nos EUA, passando pelo avanço gradativo das políticas educacionais, chegando até a definição de cultura (enquanto campo de disputa de significados), multiculturalismo e educação multicultural.

Segundo ele, a sala de aula pode ser considerada multicultural e as políticas multiculturais são terreno da intervenção política. “Educação multicultural inclui necessariamente perspectivas de outros grupos”, afirmou. “E aí temos um problema: se observarmos as referências bibliográficas das principais universidades, notaremos que a maioria absoluta dos autores são homens, europeus (brancos) e cristãos”, acrescentou.

Hoje, já avançamos. Nas universidades brasileiras, por exemplo, temos mais mulheres do que homens estudando. Temos programas governamentais de incentivo ao ingresso à educação superior, “porém, às vezes, olhamos o progresso escolar em nossos contextos e nos esquecemos das crianças de outros lugares. O desigual está na sala de aula. Muitas vezes, a educação é multicultural, mas ela força o mesmo ensino (monocultura)”, esclarece. Para o professor Marcos, a saída está em reconhecer os saberes da comunidade, estabelecer uma justiça curricular (em literatura, por exemplo, porque uma obra em detrimento da outra?), contemplar textos de mulheres de outros grupos sociais. “As práticas podem ser repensadas. Não é para entrar na sala com um plano de ensino fechado”, finalizou.

Apresentações culturais, relatos de experiência e presença do cartunista Marcos Guilherme do Estúdio Figuras também marcaram a ocasião. “As apresentações nos diferentes eixos temáticos foram divididas em infâncias e juventudes. Procuramos trazer alguns relatos de trabalhos já vividos tanto nos colégios como nas Unidades Sociais Maristas de São Paulo para que fossem analisados e discutidos com os participantes e com os especialistas dos eixos”, declarou Marisa Ester Rosseto, Diretora Educacional do Colégio Marista Arquidiocesano. “Desta forma, esperamos que o evento tenha acelerado os corações e mentes dos participantes, apresentadores e organizadores para que, nos diferentes espaços de educação onde atuamos, as pessoas possam saber a definição de dignidade, palavra repleta de sentido, entre a fria razão e a essência da sensibilidade humana, pois como nos ensinou Kant ‘as coisas têm preço, as pessoas, dignidade’”, finalizou a Diretora Educacional.