Uma manhã qualquer na biblioteca…

Uma manhã qualquer na biblioteca…

Colégio Ítaca

08 Maio 2015 | 14h10

 

COLÉGIO_ÍTACA - 2013 - 001 (2)

Numa manhã qualquer, no andar de cima da biblioteca do Ítaca, corro o olho ao redor da mesa onde costumo trabalhar 
quando não estou dando aula e acho uma pérola. Inusual em tais ambientes escolares,  a biografia do líder negro sul-africano Steve Biko – morto em 1977 pelo desumano regime do apartheid – foi um convite a reflexões e ações. Na hora me veio à cabeça minha próxima aula sobre Estado. E sobre Colonialismo. Segregação urbana. Baltimore atualmente. Entre outros assuntos.

A biblioteca, aliás, é um ótimo lugar para se deparar com assuntos, muitas vezes para ir além do já planejado no curso. Costumeiramente eles são caçados nas prateleiras com as revistas mensais e semanais, mas não só. Jornais. Quadrinhos. Biografias. Gosto muito das biografias (existe uma do André Agassi muito boa). A série dos generais. Povos do passado. Os clássicos. Coleção Primeiros Passos quase completa! Lembro bem que eu adorava os livrinhos escondidos no canto inferior da biblioteca da minha escola: o que é semiótica, mais-valia, ação cultural, tortura, mito, literatura, lógica, leitura, educação…

Faz tempo que venho aqui e, normalmente, meu lugar era a esquina dos mapas impressos, em seus canudos… isso antes de se ter construído uma escada por cima desse canto sagrado. Eles mudaram de lugar e mudaram-se também os tempos, mas mesmo com todas as tecnologias continuo usando e gostando desses mapas. Old School. Em tempos idos, sempre com ajuda da bibliotecária Marta, também consultava muito o acervo de VHS: tinham destaque, uma certa imponência até, com suas coleções enfileiradas. A história foi implacável com eles… Nem parece que faz tanto tempo.

Em manhãs mais lentas, consigo um tempo para esquadrinhar o Mar Cáspio ou o fluxo colorido de culturas ou da diversidade da vida, pendurados nas paredes do andar de cima. Próximo da escada, nesse mesmo andar, um desenho replicando uma cidade grega. Deveria ir pro andar de baixo, mais visitado, pra ser alvo de olhadas mais demoradas? Mas a lentidão aqui é episódica, não tem muito espaço para contemplação que não seja de páginas impressas ou telas de vídeo. A biblioteca é um dínamo: gente de todas as alturas que entra e sai. Gente lendo e estudando. Refúgio de muitos estudantes com algum tempo livre. Jogos – xadrez, cartas e uns mais modernos que desconheço. Gente em busca de terminar um trabalho na última hora sempre tem. Debates sobre pesquisas também. Contação de histórias com os menores. Aulas de leitura. Professores consultando o acervo, atendendo  a alunos, trabalhando nos computadores. Da porta, discretamente, chamam o Hélder, a Marta, a Lina, o Hélder de novo, a Yanaí, o Fernando. É um fluxo vital, mas harmonioso, não incomoda nem agride a tranquilidade dos que preferem certo recolhimento.

Ambiente vivo, longe da sisudez, da interdição, da paz dos cemitérios. Não afasta, pelo contrário convida. Antes todas pudessem ser assim, especialmente as públicas.

Do teto, bem alto, o dragão colorido, pendurado, vai girando lentamente, como quem controla com garras e dentes afiados tudo que se passa. Aqui dentro e lá fora. Pelas janelas, até o teto, se vê a vida no pomar em frente. A mudança das estações. As folhas e flores atapetando o chão. As frutas. O frio que acinzenta as árvores. As cores explosivas combinando com os ventiladores em movimento aqui dentro. O silêncio efêmero e a circulação permanente. O pebolim, o tênis de mesa, a sala da Aninha e as mesas de madeira repletas, no almoço, interpenetram o vidro, deixando apenas adivinhar o som que existe desse lado de fora.

A Marta me conta que a biblioteca tem o nome de Maria Saraiva Côrtes em homenagem à grande amiga que, generosamente, abriu a casa para que as primeiras matrículas fossem feitas, antes mesmo de as paredes do colégio estarem erguidas. Há 25 anos. Faz tempo que a memória do Ítaca palpita em cada estante.

Texto: Maurício Costa Carvalho (Geografia – EM)