Porque é o rio que corre pela minha aldeia…

Porque é o rio que corre pela minha aldeia…

Colégio Ítaca

21 Março 2015 | 10h17

DSCN2702Mais de 300.

Temos, na cidade de São Paulo, mais de 300 rios, ribeirões, riachos e córregos. Quase absolutamente todos, ao longo do tempo, soterrados, retificados, canalizados.  Transitamos por cima deles, sem nem desconfiar:  carros na Avenida 23 de Maio ou na 9 de Julho só conhecem dali o asfalto (ou até os alagamentos), mas nunca as formas dos córregos que ainda estão lá.

Antes disso ou ao mesmo tempo, nós os poluímos, matamos seus peixes e suas chances. Perdemos os rios e, com eles, toda a complexa dinâmica de vida da qual são parte essencial. E também perdemos sua história na construção da memória de cada bairro, de cada comunidade. Conhecer essa realidade escondida e bem maltratada é entender melhor, por exemplo, a crise de abastecimento de água que vivemos, mas também o antigo desenho da cidade e seu processo de urbanização.

E que melhor maneira há para se começar do que olhando para o entorno, para a vizinhança, para “nossa aldeia”? Assim, fomos em busca do escondido rio Pirajuçara, que corre sob a avenida onde fica o Colégio Ítaca: ele tem suas várias nascentes nas cidades de Embu, Taboão da Serra e São Paulo e deságua no rio Pinheiros, passando pela entrada da Cidade Universitária, aí já mais visível.

Muitos dos nossos alunos desconheciam a existência de um rio ali, e o primeiro passo foi resgatar a história do bairro e das suas águas (quantas enchentes, no passado…), especialmente na figura de um morador antigo, que veio conversar com todos os estudantes do Ensino Médio. Bem mais recente, a convivência de 25 anos do Colégio com um Pirajuçara já canalizado e subterrâneo foi também assunto do encontro.

Nesse processo de (re)conhecimento, fomos descobrir esse rio e investigar suas águas: um único pequeno respiro murado, na avenida, e o 1º ano EM pôde olhar, sentir o cheiro (ruim), ver o lixo formando um arremedo de margem. Coletar amostras da água e analisá-la em vários aspectos certificou o que olhos e narizes já tinham percebido: o rio está moribundo.

Outras etapas ainda virão, outras amostras serão coletadas em outros pontos, para que se avalie a capacidade ou incapacidade de autodepuração desse corpo hídrico. Todo o entorno também será estudado, unindo-se as disciplinas de Biologia, História, Geografia e Sociologia.

Certamente a proximidade com o rio e sua  história na vida de famílias da vizinhança e de muitos alunos fizeram mais sentido para o estudo e permitirão, depois, um olhar analítico e também amoroso para além, pra outros rios, pra outras águas. Com a descoberta de que é possível, sim, redesenhar esse pobre retrato de hoje, trazendo muitos deles de volta, como algumas cidades pelo mundo já fizeram.

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Texto: Lucia Bon (Profª. Biologia EM) e Mercedes Ferreira (Dirª. EM)