Percebendo a Terra

Percebendo a Terra

Colégio Ítaca

25 Março 2015 | 16h26

      “Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff,

levou-o para que descobrisse o mar.
Viajaram para o Sul.
Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.

Quando o menino e o pai, enfim, alcançaram aquelas alturas de areia,

depois de muito caminhar , o mar estava na frente de seus olhos.

E foi tanta a imensidão do mar, e tanto o seu  fulgor,

que o menino ficou mudo de beleza.
E, quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:
Me ajuda a olhar!”
Eduardo Galeano
(A função da arte, O Livro dos Abraços)

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Perceber o mundo em que vivemos não é uma tarefa simples. Envolver a consciência daquilo que nos vem ao encontro é dar-lhe sentido, transformando a percepção numa experiência, prenhe de significado. Poder compartilhá-la, conhecendo o universo coletivamente e construindo sentidos comuns (de vida, pois assim é que ele se tece), parece ser um dos atos mais fundantes de humanidade. Nele, embrenha-se a fantasia, a imaginação, a memória e, mais do que isso, a possibilidade de nos diluirmos nessa imensidão que nos permeia e nos rodeia. Porém, estamos, normalmente, ocupados demais para isso…

Olhar uma rocha e percebê-la em detalhes, em texturas e cores; passar por uma ribanceira de estrada e conseguir transportar-se para centenas de milhões de anos atrás; poder observar os resquícios que nos dizem que o lugar em que hoje vivemos era fundo de oceano e estava lá no Polo Sul … tudo isso parece mágico e vertiginoso. E voltamos a fazer parte desta dança, mesmo que por um instante.

No entanto, tornar assim vivo e curioso o aprendizado da formação geológica da Terra é um desafio, diante de tantas teorias, hipóteses, fenômenos e classificações que lembram, por um instante, o massacrante “rol de afluentes da margem esquerda do rio Amazonas”, dos quais era preciso se lembrar sem hesitação. Muitas vezes, os embasamentos conceituais acabam por se sobrepor à própria realidade, como se antecedessem aquilo que nomeiam. Torna-se necessário, nesses momentos, reaprender a perceber, a enxergar, antes de classificar e encontrar no mundo nada mais do que conceitos.

Temos então uma tarefa que é mais elementar: ver, sentir e descrever. E desenhos, poesias, pinturas, enfim, várias linguagens podem, ainda, potencializar novas sensibilidades para se olhar o mundo como que da primeira vez. Assim, estudantes do 1º ano EM do Ítaca encontram-se com a história do planeta, em uma saída a campo e, tomados pela descoberta, trazem em seguida a dúvida e a necessidade de compreender: por que é assim? Qual sua origem?  Por que são tão parecidos ou tão diferentes? Vão, dessa foram, delimitando-se hipóteses e lança-se a curiosidade que mobiliza o aprendizado, a pesquisa: uma rocha não é uma rocha, mas é algo pedindo para ser lido, no livro aberto da natureza, como diria Goethe.

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Tal disposição para o conhecer pode, então, sacudir nossas certezas, fazer com que vivenciemos, por exemplo, a eterna mutação até mesmo do que parece ser nosso porto mais seguro, o chão em que pisamos.

Assim, em um percurso que nos levou até o interior do Estado de São Paulo, pudemos encontrar a Terra de mais de 600 milhões de anos atrás, de um continente submerso, e resquícios de eventos geológicos de cerca de 300 milhões de anos, quando estávamos cobertos por gelo. Foi possível observar vestígios do fundo do mar, em intrusões de magma, frutos de seu resfriamento que penetrava por esses sedimentos… e passamos milhões de anos em quilômetros por hora. Ao lado, sempre o Tietê. E, abaixo, o Aquífero Guarani, imensa reserva de água doce, ironicamente abrigado em uma região que se formou a partir da antiga existência de um deserto… chegamos aos 200 milhões de anos atrás. Tudo muda no Universo. E o homem encontra seu lugar, relacionando-se hoje com tudo isso, no cultivo da terra e na criação do gado, participando dessa efêmera complexidade de forma – mais ou menos – consciente, responsável e harmoniosa.

A experiência de, em nossa pequenez, nos sentirmos parte da Terra, de sua imensidão, pode abrir horizontes muito férteis, incertos como a deriva dos continentes ainda por vir, incessante, mas exuberante, como as inomináveis formações minerais que vão se moldando neste processo.

Texto: Prof. Arthur Medeiros (Geografia – EM)

Fotos: Mercedes Ferreira

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