O olhar fotográfico

O olhar fotográfico

Colégio Ítaca

28 Abril 2015 | 13h37

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Saída para estudo do meio. Ônibus cheio e animado, crianças exultantes por descobrir novos horizontes. O ônibus para em frente a algum ponto de especial interesse. Todos descem e imediatamente sacam seus celulares e máquinas fotográficas. Começam a registrar tudo o que veem. Entre incessantes cliques, selfies e registros a esmo, o professor tenta chamar a atenção dos meninos para algo que, segundo ele, só será possível ser percebido ali, naquele instante. Sua intenção é oferecer aquela experiência apenas possível em saídas de campo. Depois de muito custo, os cliques diminuem, as selfies findam e, finalmente, ele tem a atenção dos alunos. Tarde demais, o fenômeno se foi. Aquela sensação de descoberta ficou escondida atrás dos colegas que posaram para as fotografias de alguns deles, e o instante decisivo torna-se cada vez menos decisivo na vida desses alunos. 

Todos nós, que já saímos para campo com alunos, em algum momento enfrentamos situações como essa. Sabemos, porém, que o registro se faz necessário nas mais diversas formas e momentos escolares, mas como driblar esse modo tão contemporâneo de olhar para o mundo pelas portas da selfie?

O curso de Linguagens Audiovisuais – Fotografia, ministrado no 6º ano, tem a proposta de resgatar o olhar dos meninos para esses momentos. O caminho é ampliar seu repertório, apresentando o trabalho de grandes fotógrafos, e desenvolver um trabalho com fotografia analógica, oferecendo ao aluno um outro ritmo, um outro tempo em suas experimentações.

A intenção é desenvolver um trabalho assertivo de fotografia, com produção autoral e análise dos  trabalhos de renomados fotógrafos. Conhecendo o enquadramento, a luz, o objeto fotografado e a escolha do recorte dado, os alunos percebem que há diferentes formas de trabalhar cada tema. Os registros, então, passam a ser os mais pessoais possíveis, e os trabalhos surgem com incríveis registros do cotidiano de cada criança e o desenvolvimento de um olhar aguçado para coisas que, geralmente, passariam despercebidas nesse cotidiano.

Esse, porém, é um trabalho lento, que começa com a observação da formação das imagens em câmeras escuras, passando pelo uso de pinholes, latinhas furadas com uma agulha que produzirão fotografias posteriormente reveladas pelas crianças, e finaliza numa produção fotográfica que pode se utilizar de técnicas alternativas de ampliação, como a cianotipia, antotipia ou, mesmo, a ampliação em papel fotográfico em laboratório.

As modernas máquinas digitais e celulares dos alunos  não são deixados de lado e também são utilizados no curso. A manipulação desses equipamentos, constantemente presentes no seu cotidiano, habilita-os a registrar livremente seus trabalhos autorais, longe e dentro da escola.

O processo de criação fotográfica passa, então, a ser contínuo, e o aluno não mais descartará seus registros sem nenhum critério. Cada fotografia é, portanto, pensada, montada na cabeça da criança que, no instante do clique decisivo, terá melhor noção do recorte a ser dado, do enquadramento mais adequado, da luz ideal, mas, principalmente, do que considera importante ser registrado.

Pretendemos que os alunos desenvolvam uma nova dinâmica do olhar, em que respeitar os momentos de observação e reflexão sobre cada um dos fenômenos vividos passe a ser parte de sua rotina.

Assim, o ônibus continua a sair cheio, com crianças animadas e professores empolgados. Contudo, o instante decisivo é integrado à vida dos alunos em campo. E também na escola.

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Texto: Prof. André Mascaro Peres (Fotografia EF2)