Notas de aula sobre “O espelho” de Machado de Assis

Notas de aula sobre “O espelho” de Machado de Assis

Colégio Ítaca

31 Julho 2015 | 11h10

Um texto para ser publicado neste Blog… Talvez falando de um Projeto que estamos começando a desenvolver aqui no Colégio, sobre a relação Identidade/Alteridade…  Por fim, resolvi não falar exatamente do Projeto, mas de uma aula ministrada no curso de Filosofia para o 3º EM,  em torno de um conto de Machado de Assis, O espelho. Seria isso então: reproduzi a estrutura dessa aula, bem como o tom didático que, presumo, impregna minha fala quando entro no papel de professor. Para mim, foi um bom exercício redigi-la agora. E, indiretamente, pode iluminar aspectos do Projeto que está começando a se desenvolver com o EM inteiro.

 

Cena de O Espelho de Machado de Assis em HQ. Editora Mercuryo, 2012. Arte: João Pinheiro.

Cena de O Espelho de Machado de Assis em HQ. Editora Mercuryo, 2012. Arte: João Pinheiro.

1.

No morro de Santa Tereza a noite era sossegada. Estrelas pestanejavam no céu e suas luzes fundiam-se à luz das velas que alumiava a sala onde quatro ou cinco cavalheiros proseavam. Debatiam sobre “cousas metafísicas”, os mais árduos problemas do universo. Um entre os cavalheiros se chamava Jacobina, tinha tédio à controvérsia e, por isso, não entrava na conversa. Permanecia mudo, daí a impressão de serem apenas quatro os debatedores. Entre os temas, talvez o mais grave e profundo – a natureza da alma humana –, produzia muita discórdia. E Jacobina foi instado a opinar. Reafirmando seu tédio às dissensões, disse que não. Nem opinião nem conjectura; trataria, isso sim, de narrar um caso capaz de demonstrar sua teoria sobre a alma humana. Deixou claro que não aceitaria apartes ou réplicas. E pôs-se a falar.

Primeiro expôs sua tese: a alma, ao invés de una, é dupla. Tem uma parte interna, que “olha de dentro pra fora”, e uma externa, que olha de fora pra dentro. Em suma, todos temos duas almas, ambas vitais, complementares como as metades de uma laranja. Faltando uma das almas, enfraquecemo-nos e podemos morrer. Mas que é essa alma exterior que nos olha de fora? Ela pode ser muita coisa. Um botão de camisa, o dinheiro, a ópera, por exemplo, podem fazer as vezes de alma exterior. Além de variável, ela é mutável. Hoje pode ser uma, amanhã outra. Entre os indivíduos volúveis, é possível que a alma exterior mude conforme as estações do ano.

Essa tese pode ser demonstrada, diz Jacobina, através de um caso ocorrido com ele em sua juventude.

Era jovem, pobre e fora nomeado alferes da guarda nacional. A família ficou orgulhosíssima, os vizinhos o invejaram, todos reconheceram a distinção. Uma tia distante chamada Marcolina, sabendo da novidade, convidou o sobrinho para passar um mês em seu sítio. Chegando lá, Jacobina foi tido como herói – o Alferes. Tia Marcolina não largava do seu pé, chamando-o de alferes a toda hora e mimando-o bastante. Querendo agradá-lo, mandou por em seu quarto um grande espelho, objeto precioso da época de D. João VI. Todos eram solícitos com ele, chamando-o apenas alferes, o que acabou por provocar uma mudança no moço: “O certo é que todas essas cousas, carinhos, atenções, obséquios, fizeram em mim uma transformação, que o natural sentimento da mocidade ajudou e completou. (…) O alferes eliminou o homem.”. A humanidade dele cedeu lugar ao militar; a alma que o olhava de fora passou a resumir-se àquilo que dizia respeito à patente, o resto permanecendo esquecido, logo esvoaçando no ar. Jacobina era “outro, totalmente outro. Era exclusivamente alferes”.

Foi então que Tia Marcolina precisou se ausentar do sítio por conta de uma doença que pegou sua filha. Na companhia de Jacobina permaneceram os escravos. Estes, aproveitando a ausência da tia, fugiram dali. E Jacobina ficou só. A solidão se alongou por uns dias e, com ela, uma nova temporalidade tomou conta daquele sítio, enredando Jacobina numa sensação difusa e pesarosa. O tempo da solidão, espichado, quando as horas não passam e o pêndulo do relógio parece oscilar entre dois séculos trouxe-lhe um tédio tremendo. Jacobina começou a se sentir vazio. Ficou meio morto-vivo mesmo, naquela ausência completa dos outros. “Era um defunto andando, um sonâmbulo, um boneco mecânico”. Seus dias passavam assim, mortos. E ele só sentia alívio durante o sono, quando sonhava: aí ele se via novamente rodeado pelos outros, que o saudavam, orgulhosos do alferes. Mas depois do sonho, a solidão voltava, com ela a angústia.

Transcorridos oito dias nesse estado, Jacobina resolveu se olhar no grande espelho “com o fim justamente de achar-se dous”. Mas o que viu? Sua imagem esfumada, imprecisa, vaga. Isso o aterrorizou e ele pensou em fugir dali… mas teve uma ideia: vestir a farda de alferes. Quando fez isso, só então pode ver novamente sua imagem integral: “era eu mesmo, o alferes, que achava, enfim, a alma exterior. Essa alma ausente com a dona do sítio, dispersa e fugidia com os escravos, ei-la recolhida no espelho”. Assim Jacobina recobrou sua imagem e pôde agüentar a ausência dos parentes, olhando-se no espelho umas horas por dia.

Esse o caso de Jacobina, que depois de contá-lo saiu de cena.

2.

“Há casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa; – e assim também a polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de botas, uma cavatina, um tambor, etc. Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que é, metafisicamente falando, uma laranja.”

 Além de furtar-se ao diálogo e assumir uma posição de altivo desdém em relação a seus ouvintes, Jacobina aborda um assunto grave como quem faz piada (“o homem é, metafisicamente falando, uma laranja.”). Adquirindo ares de homem culto, na sequência não recua diante da referência erudita e cita Shakespeare e personagens da história antiga, tudo isso a fim de ilustrar sua tese, que por ficar assim enrolada nesse discurso volúvel, poderia soar como um disparate ou um gracejo: “Em primeiro lugar, não há uma só alma, há duas…”. Se em si mesma já é inusitada, por conta do topete de gentleman irônico assumido por Jacobina em sua explicação, essa tese adquire ares enigmáticos – o que ele quer dizer com isso? Desconfiando dos despistes desse narrador – por que tratar assim deste assunto? –, o que tentaremos entender por nossa conta, tomando como base a narrativa resumida acima, é o seguinte: em que consiste afinal essa “alma exterior” responsável por nos infundir vida? (Anima, do latim, donde provém “alma”, é isso mesmo, um “sopro” que justamente nos anima).

Jacobina a compara a coisas – “a polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de botas, uma cavatina, um tambor”, por fim, uma farda de alferes da guarda nacional. Mas será mesmo que as coisas podem nos olhar de fora pra dentro e assim assumir a função de uma alma exterior? A narrativa dele, se não desmente essa tese, que parece uma ideia esdrúxula, conta como tal fantasmagoria pode se produzir. É que não é a farda de alferes que faz com que Jacobina se converta num outro (“no fim de três semanas, era outro, totalmente outro”), mas o modo como os outros olham pra ele é que faz sua identidade se preencher inteiramente pela patente. “Aconteceu então que a alma exterior, que era dantes o sol, o ar, o campo, os olhos das moças, mudou de natureza, e passou a ser a cortesia e os rapapés da casa, tudo o que me falava do posto, nada do que me falava do homem”. Portanto, é apenas por que a farda é vista pelos outros como um objeto que o distingue que Jacobina cola por assim dizer sua personalidade na do alferes. O que se processa, obviamente, é uma espécie de redução brutal: o “homem”, que presumimos ser algo mais do que seu posto profissional, algo mais, digamos, do que qualquer imagem em que o outro lhe fixa, é como que absorvido por um juízo que vem de fora e o acorrenta a uma identidade: – você é isto. Eis Jacobina refém da coisa, sua alma exterior, já que, para ele, ser homem se reduz, agora, a ser o que os outros dizem que ele é: um alferes. Outro, em latim, diz-se alienus: a farda é o sinal exterior da completa alienação de Jacobina, o signo de uma dependência permanente em relação ao outro instalada em seu ser, já que, para ele, seu ser se converteu num ser-outro. Note-se que alçar-se a alferes significa uma ascensão social. Escapando à vida incerta dos homens livres e pobres na ordem escravocrata, que era a situação inicial dele, de um zé ninguém Jacobina se converte, através da patente, em alguém. Com efeito, a fixação na identidade de alferes se processa através de uma espécie de corrente de estímulos exteriores que são sinais do reconhecimento social dessa ascensão – bajulação, elogios, mimos. É o que torna a farda uma coisa especial, algo como um objeto enfeitiçado, um fetiche: a alma exterior – começamos a entender – é a coisa investida pelo desejo do outro, um desejo que não é deste ou daquele outro particular, mas de um Outro por assim dizer anônimo, algo como a voz da sociedade. A dependência de Jacobina em relação ao Outro se exibe através da identificação dele com o que presume ser o objeto do desejo dos outros.

Isso posto, entendemos por que, sozinho, Jacobina não sabe mais quem é, ou melhor, sem os outros para confirmarem incessantemente a identidade dele, é essa identidade que se esfumaça, é a alma exterior dele que se esvai. E como Jacobina deixou de ser tudo o que era para ser apenas isto, com a ausência dos outros é sua vida que se ausenta, ele desanima e sofre uma espécie de despersonalização, o que Machado concentra na passagem do espelho.

                                                                                     3.

Numa cena de Entre quatro paredes (Huis Clos) de Sartre, Estelle se dirige aos dois outros personagens que estão confinados junto com ela, após perceber que no quarto onde estão não há espelhos:

“Estelle – O sr. terá um espelho? (Garcin não responde). Um espelho, um espelhinho de bolso, não importa. (Não responde). Se me deixam sozinha, pelo menos arranjem-me um espelho. (Garcin continua com a cabeça entre as mãos. Não responde).

Inês – (Com solicitude): Tenho um espelho em minha bolsa. (Procura-o na bolsa com raiva): Não está mais. Devem ter ficado com ele no depósito.

E – Que aborrecimento!… (Um tempo. Ela fecha os olhos e cambaleia. Inês corre para ampará-la).

I – Que tem?

E – (Abre os olhos). Sinto uma coisa esquisita. (Ri e se apalpa). Com a sra. não é assim também? Quando não me vejo, por mais que me apalpe, fico na dúvida se existo mesmo de verdade.

I – Tem sorte. Eu sempre me sinto interiormente.

E – Ah, sim, interiormente… Tudo o que se passa nas cabeças é tão vago que me dá sono.

(Tempo). Meu quarto tem seis espelhos grandes. Estou vendo todos. Estou vendo. Mas eles não me veem. Eles refletem a penteadeira, o tapete, as janelas… Como é vazio um espelho em que não estou! Quando eu falava, sempre dava um jeito para que houvesse um espelho em que eu pudesse me ver. Eu falava e me via falar. Eu me via como os outros me viam. Por isso, ficava acordada. (Com desespero) Meu rouge! Tenho certeza de que me pintei mal. Mas não posso ficar sem espelho por toda a eternidade!

I – Quer que eu lhe sirva de espelho?”

A situação é simetricamente oposta àquela apresentada por Machado em O espelho, embora o problema, por assim dizer, seja o mesmo: se no drama de Sartre a personagem, na falta de espelhos, procura restituir sua imagem através do espelho dos olhos dos outros, em O espelho, na ausência dos olhos dos outros, Jacobina recorrerá ao espelho a fim de confirmar para si que existe de verdade. Mas tanto Jacobina quanto Estelle estão presos na mesma armadilha: a identidade deles se confunde inteiramente com uma imagem que lhes advém de fora. Sumindo o outro, o eu desaparece, aliás, como num espelho: se desvio meu corpo do campo visual coberto pelo reflexo, sumo; se meu ser se confunde com minha imagem, já não sei mais se existo quando não me vejo. Dizendo de outra maneira: se há necessariamente uma dimensão projetiva e alienante na constituição do que somos – sem uma relação com a alteridade, acaso se poderia constituir uma identidade? – nesses personagens é como se esse dado se fixasse numa relação assimétrica, em que o Eu se deixa absorver inteiramente pela imagem projetada pelo Outro, sem jamais ir além dessa identificação. Incapazes de se colocar além da imagem que lhes foi devolvida pelos outros e na qual se projetam, vivem essa correlação necessária como uma dependência infernal.  No caso de Jacobina é essa dependência que aparece quando ele estaca diante do espelho: longe dos outros, perdeu sua imagem, perdeu-se. Mas o artifício para escapar a esse vazio, descobre logo, está à mão: basta vestir a farda para que sua imagem se recomponha.

“Imaginai um homem que, pouco a pouco, emerge de um letargo, abre os olhos sem ver, depois começa a ver, distingue as pessoas dos objetos, mas não conhece individualmente uns nem outros; enfim, sabe que este é Fulano, aquele é Sicrano; aqui está uma cadeira, ali um sofá. Tudo volta ao que era antes do sono. Assim foi comigo. Olhava para o espelho, ia de um lado para outro, recuava, gesticulava, sorria e o vidro exprimia tudo. Não era mais um autômato, era um ente animado. Daí em diante, fui outro.”

Texto: Fernando Vidal Filho (Filosofia EM)