Na hora da sede você pensa em mim…

Na hora da sede você pensa em mim…

Colégio Ítaca

17 Março 2015 | 15h00

Na hora da sede você pensa em mim…

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                Toda gota conta todagotacontatodagotaconta to da go ta con ta…  Temos sido inundados (com perdão da palavra) por bons slogans e campanhas que estimulam o realmente necessário exercício da economia cotidiana da água. E, como “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”,  tais campanhas têm muito valor não só no momento da crise de abastecimento por que passamos, mas também pra todo o futuro. E o cidadão tem respondido positiva e efetivamente: fechamos a torneira ao escovar os dentes, reutilizamos a água da lavadora, o banho é rápido, não se usa mangueira na calçada… Excelente?

Mas, e para além do cidadão comum, nós todos? De quem é a responsabilidade pela crise do abastecimento hídrico em São Paulo, por exemplo? O período sem chuvas foi um vilão, porém… com tanta água nos rios e nascentes, por que as torneiras estão secando? E, talvez o mais importante, quais as alternativas para se enfrentar de verdade a questão?

Esse cidadão comum, que responde a campanhas e colabora, deve e tem o direito de entender mais do que o que se veicula ou se propaga ou os discursos oficiais deixam perceber. E também fazer mais do que a essencial e inestimável economia, dia após dia. Pois é justamente aí que a escola pode entrar: ir além de possíveis lugares-comuns,  mergulhar e ajudar a entender,  discutir a fundo todos os fatos;  deve-se ampliar e não reduzir o papel do indivíduo, que faz bem sua parte, sim, mas precisa estender o olhar e a cobrança para outros níveis.

No Ítaca, as primeiras semanas de março foram dedicadas a isso, em um projeto do Ensino Médio que envolveu desde apresentações multidisciplinares – com enfoque de nossos professores nas dimensões climáticas, geomorfológicas, políticas, econômicas – e mesas de discussão com profissionais convidados,  até a análise das águas do rio Pirajuçara e expressões artísticas dos alunos sobre o assunto, com materiais variados.

Os estudantes  puderam entender pra além do que já exaustivamente tinham ouvido e lido, exercitar o olhar crítico e se preparar para atuar, logo mais, nesta séria questão que envolve o poder público, nos mais diversos níveis, e empresas e muitos grupos e entidades e cientistas, no Brasil e no mundo inteiro.

Um alerta fundamental foi o de que, recurso essencial à vida e cada vez menos disponível, a água própria ao consumo tem sido alvo de muitas disputas econômicas, o que pode ser um indício importante das causas da escassez, uma realidade já para 1,8 bilhões de habitantes do planeta. E, ainda que todos tenhamos mesmo de fazer nossa parte no hábito cotidiano de preservar esse recurso, segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação), na verdade cerca de 8%  a 10% de toda a água consumida no mundo é de uso doméstico; o restante do consumo fica a cargo da produção agrícola e industrial. No Brasil, os índices são semelhantes. Assim, ter uma ampla visão da questão é vital. E buscar soluções mais amplamente também.

A falta de água na região metropolitana mais populosa e economicamente importante  do Brasil – país de imensas reservas e potencial hídrico – coloca em xeque também nosso modelo produtivo e sua relação com os recursos naturais.  Afinal, um bem tão importante quanto a água pode ser uma mercadoria?

Em nosso horizonte, fica a certeza de que é necessário discutir e pensar em alternativas, além daquelas em que toda gota conta. Ou, como diria o samba de Braguinha, na voz maravilhosa de Clementina de Jesus:

“Na hora da sede

Você pensa em mim

Pois eu sou o seu copo d’água

Sou eu quem mato a sua sede

E dou alívio à sua mágoa

(…)

Mas se a fonte secar você se acaba

Ai..ai..

(…)

 

Texto: Maurício Carvalho (Prof. de Geografia EM) e Mercedes Ferreira (Dir. EM)

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