Êê Camará

Êê Camará

Colégio Ítaca

28 Outubro 2015 | 16h25

Trabalhando a cultura de matriz africana no Ítaca, via ensino da capoeira, o mestre  Ronaldo Oliveira – Mestre Marrom-  tem levado também a várias cidades do mundo esse Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade (assim reconhecida a Roda da Capoeira, desde 2014, pela UNESCO).

No Ítaca, o mestre  vem desenvolvendo esse trabalho há 16 anos, com grupos de alunos do EF1, EF2 e EM. E, pra além da musicalidade e do conhecimento de elementos da cultura brasileira, há muito a se ganhar com isso na escola: percepção do espaço e do corpo (de si e do outro); capacidade de reagir ao gesto do outro, às vezes antecipando-se a ele; flexilbilidade; parceria; companheirismo; foco; noção de grupo; prazer e muito mais.

Publicamos aqui uma pequena entrevista com Mestre Marrom (hoje também professor de Educação Física), para que se conheça um pouco de seu competente e amoroso trabalho e para reafirmar a escola como um espaço da brasilidade e da diversidade de ações que venham a contribuir para a formação do estudante..

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Blog do Ítaca – Como a capoeira entrou na sua trajetória de vida?

Mestre Marrom – Meu pai, José Eloy de Oliveira (o Mestre Baixinho), teve seu primeiro contato com a capoeira na Bahia, com um capoeira (ou capoeirista) cujo nome nem recorda, pois era algo sem compromisso, junto com seus irmãos, no quintal de casa, em 1977. Anos depois, já  na cidade de Taboão da Serra (Grande São Paulo), ele se matriculou em uma academia de capoeira e me levou junto.

Minha infância se passou aqui na periferia da cidade , regida de muitas brincadeiras de rua. Nessas brincadeiras sempre estava presente a capoeira e, com 11 anos, eu já reunia meus amigos para treinar e jogar. Quando eu tinha 15 anos fundamos o grupo de capoeira angola “Irmãos Guerreiros” (essa modalidade sempre foi nossa opção), em uma pequena garagem de 40 metros quadrados, onde o Grupo se desenvolve até hoje. Por ali já passaram muitos capoeiras do mundo inteiro.

Meu contato com o Ítaca veio por intermédio de uma secretária do colégio  que já conhecia meu trabalho e me levou até a direção do Ensino Médio. Estou há 16 anos na escola e, em todos esses anos, venho desenvolvendo um trabalho para apresentar aos alunos diversas manifestações culturais de matriz africana: capoeira, maculelê, samba de roda e outras.

 

BI – O que a capoeira ensina? Por que é importante ter capoeira nas escolas?

MM – Hoje eu ensino capoeira da Educação Infantil ao Ensino Médio, pois ela está sendo reconhecida como uma importante ferramenta na educação. Além das habilidades que pode trabalhar (coordenação motora, velocidade, equilíbrio), a musicalidade das ladainhas ou músicas da capoeira apresenta instrumentos e ritmos que remetem a um conteúdo histórico muitas vezes não presente nos livros: regida pela oralidade dos velhos mestres que assim nos trazem a história contada pelo povo negro de onde ela se originou, a capoeira faz com que nossos alunos valorizem também o equilíbrio entre a história escrita e a história contada através da oralidade.

 

BI – Além da capoeira, com quais outros elementos da cultura brasileira de origem africana você trabalha na escola? Qual a importância deles?

MM – Como disse, além da capoeira, trabalhamos com o maculelê, o samba de roda e estamos sempre em contato com outras manifestações como maracatu, tambor de crioula, jongo e outros. A história e a cultura afro-brasileiras são hoje obrigatórias na educação básica do Brasil e têm alcançado cada vez mais também reconhecimento internacional, como mostrou a UNESCO, nomeando-a Patrimônio Cultural da Humanidade.

 

BI – O grupo Irmãos Guerreiros tem sedes nas cidades europeias de Bremen, Vienna, Lisboa, Porto, Leipzig, Wroclav, Presov, Jena e Greifswald. Como vocês chegaram até essas cidades e mantêm esse intercâmbio?

MM – Nesse universo da capoeira estamos percebendo que os bons trabalhos estão saindo para o mundo e com o nosso não foi diferente. Há 12 anos, fundamos o nosso grupo em Bremen (Alemanha) e dali se espalhou pela Europa. Hoje contamos com alguns núcleos também em Portugal, Polônia, Áustria, Eslováquia e Noruega. Todos os anos eu visito esses núcleos para uma reciclagem e, sempre que podem, os irmãos de lá também estão aqui, inclusive vindo, muitas vezes, jogar com os alunos do Ítaca. São muito dedicados e estão trabalhando muito bem por lá.

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