Desvendando o urbano

Desvendando o urbano

Colégio Ítaca

03 Maio 2016 | 13h28

A cidade é muito mais do que um palco onde a humanidade atua.

Por trás do aparente caos em que vivemos, existe uma lógica bastante articulada que vai moldando os espaços das cidades em todo mundo à imagem, semelhança, necessidades e possibilidades do produtivismo industrial, do consumismo, da acumulação. Ao mesmo tempo, esse mundo urbano vai nos transformando e protagonizando a nossa vida, nossa sociabilidade.

Em trabalho de geografia urbana, os estudantes do terceiro ano do Ensino Médio do Colégio Ítaca são convidados a desvendar o mundo urbano, buscando na metrópole da atualidade sentimentos, imagens, sons e expressões artísticas que, como espelho do que somos, mostrem a cidade que existe em nós, os reflexos contraditórios da nossa urbanidade. E também mostrem as inúmeras possibilidades de transformação das cidades como obras da humanidade.

Seguem abaixo alguns exemplos, contemplando trechos de análises feitas por estudantes durante este trabalho:

 

O Boi
– Carlos Drummond de Andrade

Ó solidão do boi no campo,
ó solidão do homem na rua!
Entre carros, trens, telefones,
Entre gritos, o ermo profundo.

Ó solidão do boi no campo,
Ó milhões sofrendo sem praga!
Se há noite ou sol, é indiferente,
A escuridão rompe com o dia.

Ó solidão do boi no campo,
Homens torcendo-se calados!
A cidade é inexplicável
E as casas não têm sentido algum.

Ó solidão do boi no campo!
O navio-fantasma passa
Em silêncio na rua cheia.
Se uma tempestade de amor caísse!
As mãos unidas, a vida salva…
Mas o tempo é firme. O boi é só.
No campo imenso a torre de petróleo.

 

“(…) O boi está para o campo, assim como o homem está para a cidade, isto é, sozinho, abandonado, indiferente, e, apesar de estar cercado de semelhantes, ele não cria laços com os mesmos.  No começo do poema, a comparação entre boi e homem fica clara, porém no final, ambos parecem fundir-se e tornam-se uma única figura solitária. Isso fica claro nos versos finais: Mas o tempo é firme. O boi é só/ No campo imenso a torre de petróleo, pois é evidente a mistura de elementos relacionados ao animal, isto é, o boi, o campo, mas também relacionados ao homem, ou seja, a  torre de petróleo. Apesar de utilizar-se do boi para comparar ao homem com relação ao sentimento de solidão, o poema se atém muito mais a questão do homem na cidade e os sentimentos que o assolam nesse ambiente.  Esse sentimento de solidão “abre portas” para muitas discussões a respeito do homem na cidade, com ênfase na questão do individualismo, que pode ser bastante relacionada ao ambiente urbano. (…)

No ritmo frenético e alucinado das cidades, as pessoas vão se distanciando cada vez mais entre si. Pensando no urbano como uma justaposição entre produção e consumo vê-se que é um espaço da produção de capital e isso certamente condiciona um modo de vida nas cidades, este que é pautado por uma  ideologia da velocidade, uma lógica avassaladora de produtividade, ou seja, do trabalhar, estudar, produzir, comprar, etc., tudo num ritmo muito frenético e acelerado. Essa lógica da produção e consumo presente na cidade insere-se na vida pessoal de seus habitantes e acaba por distanciar as pessoas umas das outras e “criar” indivíduos cada vez mais focadas nas próprias questões individuais e no próprio benefício e produtividade. Seguindo essa lógica, a cidade é caracterizada por enorme efemeridade, ou seja,  os espaços estão em constante mudança/transformação, os referenciais urbanos são rapidamente perdidos e o ser humano tem uma sensação de estranhamento em relação à cidade e consequentes crises de identidade. Toda a lógica capitalista do consumo, da velocidade, da rapidez da informações vai acabando com a própria memória de cidade e vamos vivenciando várias coisas rapidamente, porém todas superficialmente, sem profundidade. O tempo na cidade é efêmero e o espaço, amnésico. (…)

Se há noite ou sol, é indiferente, / A escuridão rompe com o dia, ou seja,  tudo passa muito rapidamente, tudo é efêmero, veloz e nem percebemos o dia passar e quando paramos para respirar, já está tudo escuro, já é noite, e o dia se foi. Além desses, os versos: A cidade é inexplicável,/ E as casas não tem sentido algum, também se encaixam no discutido acima pois resgatam a ideia de que, tudo na cidade se transforma tão rapidamente, que perde o sentido, perde a explicação. Os nossos referenciais urbanos estão perdidos no meio dessas transformações frenéticas. (…)”

Marina R.

 

imagem mantenha dista?ncia

 

” Na imagem selecionada para este trabalho, podemos ver, de forma destacada, os dizeres “mantenha distância”, estampados na parte de trás de um ônibus utilizado para o transporte público. Podemos interpretar essa frase como algo muito maior do que preocupação para com a integridade física do ônibus, afinal, pode ser usada como uma metáfora para muitos problemas atuais que existem nos meios urbanos.

(…) O transporte público é apenas uma ilusão de coletividade. A velocidade com que tudo deve ser feito, o “tempo efêmero”, causa contraditoriamente um grande isolamento entre diversos indivíduos. A velocidade dos meios de comunicação individualiza o cidadão, que pela instantaneidade que caracteriza a temporalidade urbana não pode aproveitar a cidade como gostaria. (…)

O cidadão, por não ter acesso à cidade acaba sendo isolado. É como se a cidade berrasse para que o cidadão se mantenha afastado do público, para que o cidadão fique sozinho, abandonado, pense apenas em si em sua própria propriedade. E se, em sua própria individualidade, tudo der certo, quem sabe um dia, ele possa comprar seu carro e, finalmente, manter distância do transporte público.”

Vitor F.

 

Áudio

“(…) A cidade, apesar de estar saturada de pessoas, cria um homem solitário, que não possui relações fortes com outros iguais a si, sempre focando nos interesses pessoais e no seu mundo particular.

(…) As vozes da multidão não podem ser reconhecidas, não há tempo de parar para ouvi-las e compreendê-las. O tempo é efêmero e linear, vozes específicas só podem ser ouvidas durante alguns instantes. Na verdade, tudo é instantâneo no ambiente urbano. O espaço, as pessoas, as tendências, tudo está sempre mudando, de modo que o individuo passa a não ter mais uma referência, ele não se identifica com uma identidade, ele fica, portanto, perdido e isolado. Mesmo estando em um ambiente cheio e repleto de seres humanos, o sujeito não consegue mais reconhecer lugares, não consegue mais reconhecer pessoas, não consegue mais reconhecer vozes.”

Gustaff B.