Tarefas de casa: um eterno dilema escolar

Colégio FAAP

16 Junho 2016 | 16h10

Alguns sintomas persistentes revelam, na educação, resistências muito antigas. Ou  melhor, preconceitos de difícil superação.

Entre tais permanências, a questão que envolve a quantidade de tarefas domésticas que um estudante deve ter, diariamente, ainda provoca controvérsias comprometedoras.

Evidentemente, não se trata, aqui, do ensino superior, mas do fundamental e médio, uma vez que, no nível superior, o ser humano formado reúne as condições críticas necessárias para administrar seu tempo e suas prioridades.

Ainda é um erro frequente se avaliar a “boa escola” pelo volume massacrante de trabalhos que o estudante é obrigado a fazer extraclasse: “é um colégio puxado, meu filho quase não tem tempo para nada”.

Só por uma afirmação deste teor, sobretudo quando se fala de um jovem ou criança em nossos dias, já se identifica uma excrescência anacrônica. Com tudo o que se sabe sobre a importância do brincar; com todas as novas possibilidades de formação não atendidas pela escola e com todas as novas opções de lazer, anular o tempo livre do estudante é condená-lo a ser um mau aluno, ou penalizá-lo a uma vida incompleta e infeliz.

A construção do conhecimento deve, prioritariamente, ser feita na escola, com a orientação, incentivo e apoio dos professores que são os especialistas nesse processo. Atribuir às famílias parte relevante desse processo é insensato, quer pela escassez de tempo de que dispõem hoje, quer pelas suas limitações de conhecimento. Decorrente desse desajuste, temos a “indústria das aulas particulares” prova incontestável da falta e bom senso das escolas em ajustar seus níveis de exigência como perfil de seus alunos.

Aliás, penso que deveríamos abrir espaços mais amplos para a inserção constante desse princípio pedagógico elementar: o bom senso. De que adianta termos bons resultados nos grandes exames correndo o risco de criarmos fileiras de fracassados? Educar é, antes de tudo, seduzir o educando para o aprender, tornando esse exercício um desafio estimulante e não uma punição execrável.

O que temos, numa infinidade de lares, é a cena deprimente de crianças e pais exaustos, tentando dar conta de tarefas que roubam o já escasso tempo de convívio familiar e que deveriam se limitar a ser um rápido fixar do que foi trabalhado na escola. Tal princípio deve ser válido, inclusive, para as tão temidas provas, pois a escola eficiente deve prevê-las e, para elas, preparar os seus alunos.

O grande e falacioso argumento do administrador escolar é o da falta de tempo para o cumprimento dos programas. Na era da informação o que conta é o desenvolvimento das habilidades intelectuais essenciais para o educando acessar a informação e não submetê-lo a enxurradas de falatório no cumprimento de livros cada vez mais volumosos e desinteressantes.

Certamente, os conservadores me imputarão o título de defensor da velha “escola risonha e franca” que, ao pé da letra, deve ser o objetivo de qualquer política educacional séria.

 

Professor Henrique Vailati Neto é diretor do Colégio FAAP – SP.
Formado em História e Pedagogia, com mestrado em Administração. É professor universitário nas disciplinas de Sociologia e Ciência Política. Tem quatro filhos e quatro netos.

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