Sonho dos pais, martírio dos filhos

Sonho dos pais, martírio dos filhos

Colégio FAAP

22 Agosto 2016 | 11h54

Grandes eventos como as Olimpíadas nos permitem não só rever conceitos, mas a uma releitura das muitas experiências que gravitam o tema dos esportes.

Sem dúvida, cabe aos pais, dentro de suas possibilidades, proporcionarem a seus filhos a realização de todos seus anseios: quase sempre as famílias se sacrificam para propiciarem a seus filhos atividades que possam ampliar seus horizontes complementando as escolares.

Nada mais necessário ante as limitações de nossas escolas e o leque infindável que o mercado oferece.

Post_A-arte
O que nos causa preocupação, é o ímpeto dos pais quando percebem em seus filhos alguma inclinação a mais em um tipo de atividade e que possa indicar um horizonte de sucesso: nestes casos, o esporte, tem revelado, à exaustão, os desvios que queremos assinalar; bastam alguns lampejos de maior habilidade para a escolinha de esportes despertar nos pais a quimera do sonho olímpico, ou das cores do selecionado nacional.

Sonhar o melhor e o mais alto para os nossos filhos é justo e saudável, até certo ponto, desde que não transfiramos a eles os nossos sonhos. Nestes casos são criadas as vocações equivocadas, os fracassos garantidos e, no limite, vidas sacrificadas aos ditames familiares autoritários.

Propiciar uma iniciação esportiva, musical, artística não é, necessariamente, iniciar a criação de um expoente humano na atividade. Deve ser educar alguém para ser, no mínimo, um apreciador iniciado, uma plateia ilustrada. Conhecer os fundamentos da arte dramática, os seus incríveis efeitos pedagógicos na formação do indivíduo não implica, necessariamente, num “estrelato global”; usufruir dos benefícios do treinamento esportivo e da disciplina que dele decorre, não deve ser pensado, apenas, como um passaporte para as glórias olímpicas.

Na fase de formação do indivíduo, os sonhos são a essência vital, são a pedra angular da construção do caráter, desde que sejam anseios genuínos. A arte de mostrar o mundo aos nossos filhos com suas cores verdadeiras; o desafio de abrir portas para que eles descortinem horizontes mais amplos; o risco de lhes mostrar a aventura da vida depende da difícil habilidade de não infundir neles nossos anseios e sonhos frustrados ou realizados, de não travesti-los do eu que construímos ou não pudemos realizar.

 

Professor Henrique Vailati Neto é diretor do Colégio FAAP – SP.
Formado em História e Pedagogia, com mestrado em Administração. É professor universitário nas disciplinas de Sociologia e Ciência Política. Tem quatro filhos e quatro netos.

Troque ideia com o professor: col.diretoria@faap.br