Reflexões sobre uma pedagogia do luto

Colégio FAAP

02 de julho de 2021 | 11h46

Entre os desafios de quem vive a educação numa escola, a presença da “velha senhora” sempre foi uma visita incômoda, mas administrável. Mesmo nos casos mais contundentes como os da morte mais próxima, temos abordagens minimizadoras dos impactos mais agudos dos primeiros tempos.

É sabido que, da mesma forma como o sempre inesperado da morte impacta com muito mais violência a sensibilidade de crianças jovens, por outro lado, a sua capacidade de superação e resiliência encurtam, comparativamente, a fase do transe dolorido. Se o tempo é o senhor da cura, em almas embebidas de esperança (nas quais a juventude confere a certeza da imortalidade), a morte impacta, mas sempre enquanto algo distante por mais que possa ter se avizinhado.

O fenômeno acima apontado (reação universal e óbvia no que se refere “à anormalidade” da certeza humana) perde a validade nestes tempos nos quais a morte anda pelas ruas recolhendo multidões saudáveis, jovens e, sobretudo, desavisadas. O desaviso fica como indubitável comprovação de que a “velha senhora” só visita os vizinhos.

Aliás, num parênteses de desabafo, nada mais inútil, irritante e descabido do que o comentário, “essa é a maior certeza da vida”. A maior certeza da vida é querer viver! Se as palavras não conseguem enunciar o inexorável da morte, o silêncio é a sua melhor expressão!

Em tempos normais, a preparação da comunidade escolar para viver o luto era uma tarefa dolorida, mas socialmente suportada. Enquanto animal grupal, a liturgia do luto sempre se constituiu na amenização da dor pela sua socialização, num leque multifacetado exprimindo épocas e culturas, mas de inequívoca e necessária presença.

Neste contexto de excepcionalidade em que não podemos contar com a presença de um grupo coeso na comunidade escolar, o hibridismo didático não consegue suprir a necessidade do calor humano, onde contatos esporádicos ou, sobretudo, a frieza das máquinas em nada amenizam a dor.

Se nas sociedades capitalistas contemporâneas a celebração da morte se esvaziou e perdeu parte de seu caráter terapêutico, a necessidade dessas formas de culto permanece. Por mais que se queira simplificar e racionalizar a morte, a necessidade de conforto psicológico exige, mesmo que minimizados, rituais próprios e indispensáveis para a confirmação de uma das essências de nossa humanidade.

Professor Henrique Vailati Neto é diretor do Colégio FAAP – SP. Formado em História e Pedagogia, com mestrado em Administração. É professor universitário nas disciplinas de Sociologia e Ciência Política. Tem quatro filhos e quatro netos.

 

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