Ponderações sobre nossa maior riqueza: as crianças

Colégio FAAP

23 Janeiro 2017 | 11h15

Apesar de uma vida dedicada às crianças e jovens, permito-me algumas considerações descompromissadas, mas não menos responsáveis sobre esse mais precioso bem que são nossas crianças.

Na voragem tecnológica que envolve esses “nativos digitais”, preocupações antigas que sempre assombraram os pais retornam em volume e profundidade maiores. Houve época em que as histórias em quadrinhos eram os vilões da educação formal acusadas de roubar a atenção das crianças para os bons textos e para as histórias de conteúdos mais educativos. Na voragem da modernidade, surgiu um vilão mais poderoso e incontrolável, a televisão, destruidora dos bons costumes, absorvente e desvirtuadora. Hoje, por fim, é o universo virtual, de alcance total e de efeitos imprevisíveis.

Lutar contra o novo foi, através da história, o mais inglório e inútil esforço. Aliar-se e se aproveitar do poder e do encantamento da inovação é o grande desafio, já que foram inúmeras as aventuras pedagógicas provocadas pela adoção do novo como sinônimo e progresso.

Nesse longo entrevero entre a modernidade e a adequação dos novos instrumentos à educação, o destemor ante a mudança e o bom senso têm sido o norte seguro. Experimentos controlados e calmamente avaliados têm sido preciosos para que as novas gerações sejam libertadas de viciadas e improdutivas práticas, sem serem cobaias de modismos.

Postas tais considerações, nos arriscamos a algumas perguntas para as quais dedicamos o máximo de nossas atenções, mas cujas respostas a velocidade e a brevidade do tempo ainda não permitem conclusões.

Em que medida a qualidade das relações sociais dessas crianças e jovens fica comprometida pela reclusão nessas verdadeiras cavernas digitais. É curioso, senão assustador, assistir um grupo conversando nas redes a dois metros do interlocutor; fico tomado de uma profunda preocupação ao ver uma família, à mesa de um restaurante, presa a tablets e celulares fazendo da refeição familiar um evento de distanciamento humano e imersão tecnológica.

Nem vem ao caso a qualidade dos textos produzidos nas redes (se os idiomas são seres vivos), preocupa a inutilidade das informações buscada na “Era do Conhecimento”, no sentido de sua vacuidade e superficialidade ante a incrível riqueza à disposição do usuário.

Por fim, e não menos importante, a relativa ignorância de nossas crianças e jovens quanto às consequências de sua exposição nas redes sociais. Por mais que famílias e educadores se esforcem para alertar dos perigos de se divulgar perfis e informações pessoais, são comuns os “acidentes lamentáveis” de feitos imprevisíveis.

De forma diversa da que controlamos a leitura dos quadrinhos, limitamos o horário da televisão, temos que cuidar dos nossos nativos digitais expostos ao inusitado universo da tecnologia incontrolável. Não podemos arriscar a delicadeza de nossas crianças à voracidade do poder de absorção dos modismos.

 

Professor Henrique Vailati Neto é diretor do Colégio FAAP – SP.
Formado em História e Pedagogia, com mestrado em Administração. É professor universitário nas disciplinas de Sociologia e Ciência Política. Tem quatro filhos e quatro netos.

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