Os órfãos da abundância

Colégio FAAP

12 Setembro 2016 | 16h01

Ir contra a corrente da história é insanidade suicida, mas, algumas vezes, é tarefa incontornável quando os descaminhos ameaçam valores humanos essenciais.

Por mais recorrente que seja o tema do materialismo excessivo de nossos tempos, quando assistimos extremos contaminando as novas gerações, calar é crime  imperdoável para o educador. Neste caso, melhor repetir do que omitir.

Que o conforto material oferecido à humanidade em nossos dias superou tudo o que se poderia imaginar nos primórdios da Revolução Industrial é fato indiscutível, mas o que nos assusta é o império sufocante do supérfluo que transformou nossas casas em verdadeiros depósitos da “inutilitária doméstica”.

Sei que me ofereço, gostosamente, ao cutelo dos realistas que, por trás de um sorriso sardônico, lembrarão que “esse excesso materialista movimenta as engrenagens do mundo”.

Aqui, chegamos ao cerne de nossas preocupações e que, da mesma forma, sensibiliza uma parcela dos educadores: a forma como esse conforto material excessivo é usado e encarado pelas famílias equivocadamente.

Que não consigamos deter o poder das engrenagens produtivas e seus tentáculos publicitários, tudo bem, mas nos cabe, no processo de educação, mostrar às nossas crianças e jovens, o real valor das coisas, o quanto de trabalho elas valem e, mais do que tudo, a sua utilidade: acostumar uma criança à insanidade das coleções será educá-la para uma vida de frustrações perenes e incuráveis.

E quando, na escalada da patologia consumista, chegamos ao patamar das “marcas” como objetivos de vida, ultrapassamos, para um ser em formação, os umbrais do desatino. É compreensível que, para os que podem, dar a seus filhos o melhor é um sentimento de realização, mas iniciá-los no hábito do luxo é um exercício de iniciação à alienação; é processo de insensibilização valorativa na medida em que o educando perde a noção de que o “muito melhor” é um prêmio a esforços excepcionais, não é o corriqueiro.

Em muitos casos, muitos mesmo, as omissões familiares são compensadas, num verdadeiro escambo, com a oferta de um conforto material que excede o necessário: sem dúvida, prêmios meritórios são estímulos necessários e honestos, mas a compra, mesmo que inconsciente, do absenteísmo familiar é estelionato imperdoável que se autentica com a célebre frase, “você tem tudo o que quer por que age assim?”

Educar para a limitação, para o não justificado, para o real valor das coisas, não é negar, é uma pedagogia de valorização do sentido humano que envolve os bens materiais, é resgatar os órfãos da abundância.

 

Professor Henrique Vailati Neto é diretor do Colégio FAAP – SP.
Formado em História e Pedagogia, com mestrado em Administração. É professor universitário nas disciplinas de Sociologia e Ciência Política. Tem quatro filhos e quatro netos.

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