O ensino de atualidades: nem alienação, nem proselitismo

Colégio FAAP

20 Abril 2016 | 12h43

Nestes dias de radicalização política, manter a educação num plano o mais isento possível das polarizações extremistas é uma obrigação ética do educador. Aliás, que me perdoem os “engajados”, para um professor, a busca constante de posições isentas é um dever que sobrenada a qualquer conteúdo.

Levar nossos alunos ao conhecimento crítico da realidade tem sido um esforço de todas as boas escolas já que o fim supremo da educação é formar cidadãos conscientes e proativos. Dessa forma, em qualquer item programático em que estabeleça uma relação com a nossa atualidade, é dever do professor explorar tal vínculo. Além da demonstração do sentido prático de cada ciência, predomina a formação da cidadania, atitude que só se constrói sobre um sólido conhecimento da realidade.

Na era do conhecimento, a ignorância pelo excesso de informações é, sem dúvida, um dos fatores mais nefastos, que dá a falsa crença de que somos informados. Na maioria dos casos, somos detentores de “informações impertinentes”, no sentido de que elas não esclarecem nossa relação com a realidade. Informações inúteis para a melhor compreensão de nossa posição no contexto geral. Ilusão de conhecimento que, com a comunicação em tempo real, gera “comportamentos de manada”, modismos irracionais.

Dessa forma, num mundo globalizado, acentuadamente competitivo e complexo, construir essa consciência do real é condição essencial de sobrevivência, quer profissional quanto, sobretudo, existencial. A essa tarefa, a educação deve se dedicar em caráter prioritário: bastariam, para justificá-la, as toneladas e os milhares de litros das drogas controladoras da ansiedade; ou num nível menos patológico, as constantes e profundas dúvidas que acometem os jovens em suas escolhas profissionais, frutos inequívocos da incompreensão da realidade.

Na medida em que um professor, líder natural de opinião, se envolva com  parcialidade, num tema mais candente, ele se coloca nos limites do assédio moral, criando um viés de parcialidade que não se justifica como coerência ou honestidade. O esforço por mostrar todos os lados de uma questão com igual imparcialidade é princípio pedagógico indispensável à construção do conhecimento, até quando pré exista uma corrente dominante, ou “um óbvio histórico”: mesmo em temas como o nazismo, a inquisição, a conquista da América, nos quais o peso da interpretação histórica é demasiado, ainda assim, impõem-se ao professor um esforço didático suplementar para que o aluno se dê conta do relativismo das questões humanas.

Provavelmente, os mais engajados condenarão tais posições como impossíveis, ou alienantes, a partir da afirmação (correta, em tese) de que não existe ciência neutra e, dessa forma, a neutralidade seria uma maneira de se dissimular posições. Este é o fio da navalha: as posturas  acima preconizadas dizem respeito à fase de formação do ser humano e, não obviamente, à universidade onde, o caráter formado, permite que o estudante tenha capacidade de discernir, com mais independência, da figura icônica do professor, da validade de suas ideias. Nessa idade de sensibilidade exaltada e de completa abertura ao novo, cabe ao educador extremo cuidado ético.

Por fim, essa pandemia radicalizadora, longe de qualquer traço democratizante como querem os arautos nas duas pontas do processo, é a mais efetiva anuladora da cultura democrática.

 

Professor Henrique Vailati Neto é diretor do Colégio FAAP – SP.
Formado em História e Pedagogia, com mestrado em Administração. É professor universitário nas disciplinas de Sociologia e Ciência Política. Tem quatro filhos e quatro netos.

 

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