O elogio do diálogo em tempos de urros e uivos

Colégio FAAP

19 de julho de 2019 | 11h03

As nossas mídias não cansam de se valer de um termo eufêmico para caracterizar o atual momento de nossa cultura: polarização! Epidemia que devasta relações antigas, peste que contamina instituições, cancro que compromete a demonstração maior de nossa humanidade e da própria brasilidade, a capacidade cordial de dialogar.

Tal acirramento de paixões, pouco ou nada fundamentadas, transformou a comunicação em urros e uivos. Muito longe da palavra arrazoada e logicamente construída, ruídos travestidos de argumentos, tentam justificar, quase sempre, o injustificável. Ainda quando caminham no encalço de temas objetivos, se revestem de tal virulência na forma que comprometem, em seu nascedouro, a possibilidade de um diálogo aceitável.

Essa agudização de comportamentos tem feito com que os discursos ponderados sejam ignorados e mal interpretados, o que mina a educação em um de seus pilares: a busca constante pelo bom senso.

Educar é exercício do diálogo, é tarefa de contrapor o conhecimento à ignorância sem jamais ofendê-la, sem posições radicais, apenas construindo a difícil e delicada marcenaria da lógica.

Viver numa “cultura do diálogo enraivecido” é condenar o espaço educacional a buscar um mundo impossível, pois necessariamente paralelo a uma realidade oposta. Evitar que o fel dos que tem voz azede as relações pedagógicas é mais do que tarefa emergencial. É a única forma de se minar a continuidade dessa pestilência, é tentar fazer com que os jovens sejam os mestres dos adultos.

Se a tal polarização que se mostra é um movimento de sístole e diástole, não pode o educador esperar que uma situação mediana de arrefecimento permita a tão desejada abertura das mentes. É preciso que tenhamos claro o papel que ocupamos nessa neurose coletiva para que, com consciência e determinação, recomecemos a trabalhar sobre as cinzas que restam do bom senso, pela perpetuidade de conquistas humanas que correm riscos.

 

Professor Henrique Vailati Neto é diretor do Colégio FAAP – SP. Formado em História e Pedagogia, com mestrado em Administração. É professor universitário nas disciplinas de Sociologia e Ciência Política. Tem quatro filhos e quatro netos.

 

Troque ideia com o professor: col.diretoria@faap.br

 

 

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