Nossos filhos estrangeiros: os nativos digitais

Nossos filhos estrangeiros: os nativos digitais

Colégio FAAP

24 Novembro 2015 | 14h06

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Partindo-se do princípio indiscutível de que o educando é o sujeito da educação e de que todo o resto é secundário, o trabalho essencial do educador é decifrar esse ser em constante mutação, sem o que qualquer esforço será nulo.

Na vertigem da rapidez das mudanças nasceu uma geração que, aleitada nas redes digitais, acentuou a defasagem natural entre as gerações: o grande desafio tem sido entender o perfil desses nativos digitais longe dos mitos e dos preconceitos que nós, mais velhos, criamos para eles.

Como dizem que é possível comer um elefante em carpaccio, comecemos em doses homeopáticas.

Desde há algum tempo os mais velhos, ou os “resistentes digitais”, têm um verdadeiro deslumbramento por esses jovens gênios apertadores de botões e decifradores de máquinas. Socorridos pela insolência e destemor com que nossos jovens encaram a inovação quando nos ajudam a caminhar nesse misterioso emaranhado tecnológico, cometemos um grave erro inicial: não percebemos que aqueles que se alfabetizaram nos teclados, diferentemente de seus antecessores, não se encantam com a inovação, não a encaram como um novo deus a quem devem adoração.

A constatação dessa atitude dos jovens que reduz a tecnologia ao seu real significado de instrumento deve orientar o educador a repensar a importância e a adequação didática da mesma: foi-se o tempo em que laboratórios de PCs, projetores multimídia e outras traquitanas tecnológicas provocavam fortes emoções na juventude, convenciam os pais da excelência da educação de um colégio e submetiam projetos pedagógicos a modernismos inconsequentes.

Por outro lado, é importante ressaltar que grandes ferramentas, mal usadas, podem provocar sérios desvios, porque, no caso das TIs, está contido um universo de atalhos e desvios de lazer e informação que podem e são navegados em qualquer situação: a escolha da ferramenta, do momento e da forma de sua inserção no processo de aprendizagem, depende de uma sutil carpintaria, onde conhecimento técnico e sensibilidade são imprescindíveis para que o meio não supere o fim.
Outro aspecto a se destacar no perfil desses queridos mutantes é o tão elogiado “multitarefismo”, ou seja, sua capacidade de operar, simultaneamente, vários equipamentos.

De fato, essa atividade plural dos nativos digitais é impressionante, mas suas consequências, também, impressionam, ou melhor, preocupam, pelo quanto são ignoradas: vários são os estudos que apontam os males decorrentes dessa “atenção flutuante” que dificulta a capacidade de concentração em temas mais áridos, como é constante no universo das ciências. Daí, essa incapacidade de disciplina trazer, para a fase acadêmica, um conjunto de deficiências, de difícil superação e que contribuem, em parte, para a evasão e reprovações que se constatam nesse nível do ensino.

Sempre distante de “aventuras pedagogizantes”, o educador deve testar as inovações tecnológicas em experimentos controlados e constantemente avaliados e, jamais, se deixar levar pelo encantamento da novidade.

Por fim, na mutabilidade desta era do extremamente sempre novo, nunca perder de vista a dimensão do educando o que, por incrível que pareça, nem sempre ocupa o lugar central na execução dos projetos pedagógicos.

Professor Henrique Vailati Neto é diretor do Colégio FAAP – SP.
Formado em História e Pedagogia, com mestrado em Administração. É professor universitário nas disciplinas de Sociologia e Ciência Política. Tem quatro filhos e quatro netos.

Troque ideia com o professor: col.diretoria@faap.br