“Não há como exercitar a capacidade de abstração e absorção de conhecimentos sem o hábito de leitura”

“Não há como exercitar a capacidade de abstração e absorção de conhecimentos sem o hábito de leitura”

Colégio FAAP

15 de março de 2019 | 15h01

Há oito anos no Colégio FAAP, o professor Atílio Monteiro Junior acredita que as disciplinas de ciências humanas oferecem instrumental adequado para a leitura da realidade no sentido de formar consciências críticas e opiniões fundamentadas. “Isto falta muito em nosso tempo, quando tudo é tão superficialmente apresentado, distorcido e não raramente falsificado. Vide as fake news”, afirma.

À frente das disciplinas de História e Filosofia do Colégio FAAP, o professor destaca que o hábito de leitura é muito importante para assimilar o conhecimento com mais clareza. “Por falta desse hábito salutar, muitas vezes percebo que nossos jovens não conseguem expressar seu raciocínio de modo lógico e compreensível”, diz. Outro desafio apontado por ele é despertar a busca dos porquês.

Confira a entrevista do professor ao Blog do Colégio FAAP.

Prof. Atílio, do Colégio FAAP: “a filosofia nos leva a pensar, e pensar é coisa que, na era virtual em que vivemos, nos é roubada” (Foto: Fernando Silveira / FAAP)

Qual a importância da disciplina de História para os alunos?

A História é importante não apenas para os alunos, mas também para todas as pessoas que são conscientes da relevância de conhecer o passado para entender o presente e preparar o futuro. Parece clichê, mas não é. Todos somos frutos de um encadeamento de fatos no tempo e no espaço, queiramos ou não. Muitos gostariam que o Brasil, por exemplo, tivesse sido colonizado por alguma nação europeia hoje desenvolvida, mas isso não ocorreu. Isso não significa que sejamos menos bons que outros. Devemos aceitar nossa história. Isso constrói a nossa identidade verdadeira e não uma imitação barata a que muitos se submetem tentando ostentar uma cultura que não é a nossa. Infelizmente, falta hoje muita consciência de identidade, justamente porque não temos conhecimento real de nossa história. Ela nos ensina.

Como sabemos, herdamos inúmeras coisas da Grécia e de Roma. Todos falamos português, um derivado do latim. Muitas palavras gregas estão presentes na nossa linguagem do dia-a-dia. Vivenciamos o direito, herança romana. Vivenciamos jogos olímpicos, herança grega, e por aí vai. Haveria muitos exemplos. Tudo isso constrói aquilo que somos. E é isso que procuro mostrar aos nossos alunos. Que não estudamos História por estudar, decorar ou tirar nota. Ou apenas para saber uma sucessão de invasões e guerras que não tem nada a ver conosco hoje, mas procuro mostrar os processos que estes fatos desencadearam e que nos afetam até o dia de hoje. Assim, não importa que se saiba os nomes de todos os revolucionários franceses de 1789, mas o que a Revolução Francesa representou e representa para o nosso mundo atual, influenciando-o.

Tento passar para os alunos essa reflexão, pois acredito que se a famosa frase dos antigos “a História é mestra da vida” for verdade, nós não aprendemos essa lição ainda. A humanidade continua a cometer os mesmos erros do passado, senão piores. Por isso, a História tem muito a contribuir para a conscientização dos alunos, pois eles, afinal, decidirão muitas vezes em situações semelhantes àquelas que vemos no decorrer do tempo.

E da filosofia?

A Filosofia é um desafio, pois essa disciplina requer, por vezes, um grau de abstração à qual a moçada nem sempre está acostumada. A importância dessa disciplina reside justamente na capacidade de reflexão da realidade. A Filosofia é a busca constante da verdade, crítica e questionadora. E esse é um trabalho que demanda foco, capacidade de reflexão e expressão, habilidades que percebo cada vez mais rarefeitas entre nossos jovens de modo geral. É o filosofar que dá a capacidade de perceber quando estamos sendo submetidos à maré das ideologias, o que elas pretendem, para onde querem nos levar. É o livre pensar que nos habilita a questionar, ir adiante, não aceitar nada sem fundamentação, não ficar na superfície das opiniões e do senso comum desgovernado pela ação da mídia e dos canais digitais.

A filosofia nos leva a pensar, e pensar é coisa que, na era virtual em que vivemos, nos é roubada. Pensam por nós, escolhem por nós. Você pensa que veste o que gosta, come o que gosta, ouve o que gosta, assiste o que gosta, mas não. Você na verdade veste o que querem que você vista, come o que querem que você coma, ouve oque querem que você ouça, e assiste ao que querem que você assista. Se fizéssemos uma análise apenas do que nos é veiculado subliminarmente nos filmes em geral que nos são oferecidos como entretenimento, ficaríamos abismados em perceber a manipulação ideológica de todo tipo que nos é imposta. E é a Filosofia que nos abre os olhos, faz-nos ver no escuro, o que a maioria das pessoas não vê. Por isso o símbolo da Filosofia é a coruja, a ave de Minerva, pois essa ave, como outras, enxerga na escuridão, metáfora da ignorância e da manipulação do pensamento.

Diante da Filosofia, podemos ter duas atitudes: ou a da raposa que, vendo uvas deliciosas mas muito altas, desiste de tentar alcançá-las, ou a atitude da criança que teve a coragem inocente de gritar no meio da festa, na maior inocência, que o rei estava nu, quando os adultos não tinham coragem de fazê-lo. Ou seja, filosofar é para ousados, que não receiam subir as alturas do pensar para colher os frutos de uma visão mais ampla e, por isso mesmo, saborosa. Não fazem, pois, como a raposa, que desiste fácil. Filosofar, ainda, é para aqueles que têm o encantamento da descoberta e não têm medo de dizer a realidade como ela se apresenta a si mesmos. É a atitude da criança, sem os entraves sociais que nos amarram.

Dizia Kant que “não se ensina Filosofia, apenas se ensina a filosofar”. Eu discordo um pouco dele (quem sou eu?), pois ao apresentar o pensamento de muitos que nos precederam, pretendo que nossos alunos minimamente saibam o que pensaram antes de nós, para que eles mesmos façam a própria síntese e, quem sabe, pensem coisas novas.

“Filosofar é para ousados, que não receiam subir as alturas do pensar para colher os frutos de uma visão mais ampla e, por isso mesmo, saborosa…”

 

Quais são as principais resistências enfrentadas no ensino da Filosofia e da História?

Pois é, os desafios são semelhantes nas duas disciplinas. Já falei um pouco deles na resposta anterior. Mas acho que posso diagnosticar um aspecto importante. Ao lado dos vícios tecnológicos hodiernos, sobretudo a dependência onipresente da internet (mal usada), os alunos, até por isso mesmo, não têm o hábito de leitura. Isso é gravíssimo em qualquer área de estudos. E é fatal em Filosofia e História. Não há como exercitar a capacidade de abstração e absorção de conhecimentos se não se tem hábito de leitura, que capacita para o domínio da língua, enriquece vocabulário, desenvolve a expressão escrita e oral, e, por consequência, desenvolve o raciocínio lógico. Argumentar é fundamental em filosofia e em qualquer área. Por falta desse hábito salutar, muitas vezes percebo que nossos jovens não conseguem expressar seu raciocínio de modo lógico e compreensível. A falta dessas habilidades leva a falta de competências necessárias para bem usufruir do conhecimento, ou seja, assimilá-lo.

Outro desafio é despertar nossos jovens para a importância do conhecer, do saber, do refletir. Buscar os porquês. Quanto a isso, penso que é mais fácil. Não raro tenho debates muito interessantes em aula, às vezes desencadeados pelos próprios alunos. Mas, de modo geral, a responsabilidade pela própria construção do conhecimento parece que ainda é muito pouca.

Também às vezes nos questionam: por que saber isso? É aí que entra apresentar a História e a Filosofia na sua importância para a vida, como comentei. Mas nossos alunos, em geral, são muito receptivos e carinhosos, o que facilita em muito nosso trabalho, pois a empatia é um forte catalizador do aprendizado.

Num mundo que privilegia o avanço tecnológico e o pragmatismo, como fazer para mostrar essa importância aos alunos?

Então, pari passu como o que comentei, uma das estratégias é tentar utilizar de espaços de leitura em sala de aula. Mas também utilizar os meios digitais para pesquisas em sala, orientando fontes fidedignas e recursos audiovisuais adequados. Pois não adianta, por exemplo, o aluno acessar uma aula virtual super animada com um professor “descolado” e piadista, mas pobre de informação abalizada. Sim, a aula pode e deve ser agradável, mas o processo de aprendizagem deve ser salvaguardado. Aí mora a habilidade do professor em saber lidar com a mentalidade deles, cativando-os, ao mesmo tempo em que propicia meios de adquirirem o conteúdo requerido.

Usei a palavra “cativar”, propositadamente. Não há aprendizagem sem o encantamento do aluno. Se o cativamos, temos as portas abertas de sua mente e coração para lhe apresentarmos o conhecimento. E para se adquirir conhecimento de fato é preciso uma boa dose de afetividade pelo que se vai estudar. E aí mora também o perigo, pois, não raro, os alunos que gostam de tal ou tal professor o veem como referência. Daí a responsabilidade pelo nosso trabalho docente em apontar possíveis caminhos, mas jamais dirigir opiniões ou pior, alimentar preconceitos.

A ausência dessas disciplinas pode impactar em que sentido na vida desses estudantes?

Pode-se criar uma lacuna justamente num momento histórico em que a necessidade de compreensão e posicionamento diante da realidade é imperiosa. Aliás, como em todo tempo.

Digo que as disciplinas de ciências humanas, mas também as demais fornecem instrumental adequado para a leitura da realidade no sentido de formar consciências críticas e opiniões fundamentadas. Isto falta muito em nosso tempo, quando tudo é tão superficialmente apresentado, distorcido e não raramente falsificado. Vide as fake news. Acredito que nossos jovens e adolescentes teriam muito a perder sem essas dimensões apresentadas em sua formação, porque qualquer que seja a área escolhida por um aluno para seguir como profissão, sempre será necessária uma visão humanista da realidade.

 

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