Nacionalismo e educação: uma contradição anacrônica

Nacionalismo e educação: uma contradição anacrônica

Colégio FAAP

29 Agosto 2016 | 15h19

Todos que se emocionaram com um estádio lotado cantando a capela o Hino Nacional Brasileiro, durante as Olimpíadas, se esqueceram, por alguns minutos, de um preconceito profundamente arraigado em nossa memória, o da confusão de nacionalismo com autoritarismo.

Prof_Vailati_1

De fato, não há registro de regimes autoritários que não tenham explorado, na extensão máxima, o patriotismo como catalisador de uma fanática unidade nacional, mas há que se ponderar, com muita atenção, a existência do nacionalismo em contextos democráticos, sem conteúdos nocivos.

Seria uma desconsideração para com os nossos leitores mencionar as sólidas democracias nas quais o sentimento nacionalista, mesmo oscilando, ocasionalmente, para extremos, é contido pela solidez das instituições. Fica evidente que podemos trabalhar, civicamente, os valores nacionais sem que se resvale para qualquer forma de autoritarismo, quer à direita ou à esquerda.

Na memória brasileira, parece que os excessos patrióticos foram, tão somente, doenças políticas derivadas do regime de exceção, ignorando-se os equivalentes do mundo socialista com seu “internacionalismo patriótico” ou seus personalismos ditatoriais.

O esforço do educador, pela justa medida, não deve se ater apenas na forma como sensibilizar seus alunos para os valores nacionais, mas com relação a todo o universo valorativo: quer falemos de posições ideológicas, quer tratemos de valores religiosos, há que se criar, no educando, o senso crítico para que ele pondere entre posições conflitantes e seja livre e coerente para assumir as suas, sem cair nos abismos do extremismo.

O discurso radical insiste em frases de efeito vazias tais como “pobre do povo que precisa de heróis”, ao que corrigiríamos, “pobre do povo que escolhe os heróis errados”. O sentimento de amor à sua terra, a valorização de sua cultura e de seu passado são fatores indispensáveis à formação da identidade do ser humano, fato que a globalização apenas fortaleceu.

Mundo afora, os nacionalismos afloram sem que, necessariamente, as liberdades humanas tenham sido ameaçadas. O que se vê é a busca pela identidade sempre que situações mais críticas se colocam para uma nação e, nesse afloramento, nasce a força para a superação.

Longe de posturas reacionárias, o trabalho de valorização das identidades nacionais pode ser feito sem ranços “ideologizantes” contaminadores. Há que se incutir nos jovens a diferença essencial entre nação e governo; há que se mostrar que podemos cantar nosso hino com a mesma devoção dos franceses, sem que estejamos construindo simulacros nazifascistas, ou criando solo fértil para tanto.

Enfim, por mais que “cantores” à esquerda, ou à direita, usem nossos símbolos nacionais para fins escusos, há que se perder o pudor de usá-los com consciência e dignidade. Jamais queremos o retorno das disciplinas cívicas de outrora, mas defendemos uma postura de cultivo e de respeito aos nossos valores nacionais sob pena de continuarmos a ser, tão somente, uma pátria de chuteiras.

Professor Henrique Vailati Neto é diretor do Colégio FAAP – SP.
Formado em História e Pedagogia, com mestrado em Administração. É professor universitário nas disciplinas de Sociologia e Ciência Política. Tem quatro filhos e quatro netos.

Troque ideia com o professor: col.diretoria@faap.br