Na formação do caráter a iniciativa cabe aos educadores

Colégio FAAP

02 de outubro de 2020 | 17h36

Contemplando o comportamento humano tão eivado de desvios éticos, desanimado pela falta de caráter que assume proporções estruturais, uma amiga educadora fez a pergunta clássica: “onde erramos?”.

Na maioria dos casos, deixamos de insistir, deixamos de acreditar que tudo começa e termina na educação. Abrimos nossas defesas a dúvidas que fazem com que diminuamos a intensidade do combate. Quando os piores exemplos vêm daqueles de maior exposição, na “forja dos caráteres” da educação não se pode baixar a temperatura!

Buscando na memória aqueles educadores que nos deixaram marcas da boa educação, surgiu a lembrança do reitor do Colégio de São Bento, D. Rafael Ribenhop, que, enquanto aluno, me ensinou o valor da confiabilidade. Em qualquer acontecimento que dependesse do seu juízo, esse memorável reitor começava a entrevista perguntando: “o que aconteceu?”. Seria de uma obviedade absoluta tal abordagem não fosse o sentido profundo de confiança na veracidade da resposta nela manifestado. Tal era a confiança no aluno que aquele educador depositava que, mentir para ele, era perder um patrimônio inestimável que não nos arriscávamos mesmo que não tivéssemos consciência disso. Era honroso encarar punições com honestidade.

Por muitos anos, como professor e diretor, lutei comigo mesmo e com meus colegas pela confiança a priori enquanto um investimento que só se usufrui se antecipadamente depositado. A desconfiança como fator inicial de qualquer relação gera uma verdadeira linha de produção da mentira enquanto atitude natural de reciprocidade e defesa do ser humano.

Fazer com que o educando receba, desde sempre, a confiança do educador, é aquele reconstruir a segurança da palavra, ora em estado de falência, ou em segura inanição. Analisando os grandes embates políticos de nossos dias, contemplando com rigor os ruídos de comunicação e as áreas mais constantes de atrito no relacionamento humano, a desconfiança surge como uma moléstia endêmica.

São pequenos gestos no cotidiano de uma criança ou jovem que vão construir o seu caráter e que, nós educadores, jamais podemos descuidar. Na sensibilidade aguçada deles, pequenos deslizes podem ter efeitos profundos e duradouros, bem como pequenos incentivos podem ter dimensão inusitada e perene.

Muitas são as tarefas que se constrói no diminuto espaço das pequenas ações e que são pedras angulares na arquitetura de um ser humano.

Desconstruir uma civilização que se fundamenta nas minúcias e falácias jurídicas de contratos, que se assegura no “rigor negociável” dos meandros legais, pode ser titânico desafio. Mas agora, mais do que nunca, sentimos os jovens manifestarem essa esperança em contraponto ao ceticismo dos mais velhos, não importando sua idade.

Professor Henrique Vailati Neto é diretor do Colégio FAAP – SP. Formado em História e Pedagogia, com mestrado em Administração. É professor universitário nas disciplinas de Sociologia e Ciência Política. Tem quatro filhos e quatro netos.

Troque ideia com o professor: col.diretoria@faap.br

Tudo o que sabemos sobre:

FAAPeducaçãoColégio FAAPEnsino Médio

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: