Na educação por meio remoto a tecnologia é passado para os nativos digitais

Colégio FAAP

08 de maio de 2020 | 16h48

Assim que iniciamos o processo de educação por aulas remotas, alguns pontos de minha dissertação de mestrado, que tratava da comunicação virtual nas organizações, voltaram à minha atenção: entre eles, destaco, o fato de, diferentemente das gerações pré-digitais, os nativos digitais não cultivarem o fetichismo informacional.

Inexiste nos jovens qualquer traço do encantamento que, nos mais velhos  (ainda que residual e inconsciente) dá às inovações um potencial que extrapola sua real condição de meros instrumentos. A ausência dessa idolatria, facilmente constatada, tem provocado uma rápida saturação no potencial pedagógico daquelas que são decantadas como mais modernas ferramentas informacionais. Para esses jovens, o “incrivelmente disruptivo”, se de fato interessa, é rapidamente incorporado e banalizado.

Ou seja, não há que se contar com nenhum traço de sedução no uso exclusivo de ferramentas de TI. Pelo contrário, devemos considerar que, além de não terem nenhuma novidade, são saturadas de aridez da ausência de maior calor humano e perdem, de longe, para o intenso uso lúdico com que são utilizadas, constantemente, para fins outros.

Considerando que “o tempo de combate” possa ser muito mais longo do que previmos e desejamos, a cruel ausência do contato físico já nos obrigou, em nosso Colégio, a uma séria revisão de nossas estratégias, no sentido de reformulá-las para evitarmos saídas arriscadas como antecipação de férias – considerando que o pico da pandemia no Brasil pode coincidir com o inverno e pelos desdobramentos atuais.

Assim, como qualquer ferramenta, as TIs necessitam de constantes e acuradas revisões de uso e formas para, nos valendo de sua plasticidade e potencial de recursos, atender às muito especiais condições de uso que o atual contexto exige. Em recente artigo, Salman Khan que, ícone do ensino a distância, preveniu das limitações dessas ferramentas, o que confirma a nossa certeza de que estamos, também na educação, passando por um desafio muito mais agudo do que se imagina e que fica camuflado pelo transe sanitário.

Para tanto, antes de se aceitar soluções apressadas, há que se estreitar e aprofundar a simbiose família e escola, quer para se atenuar uma potencial exaustão pedagógica, quer para se aliviar o desespero das famílias pela sua incapacidade de apoiar a educação de seus filhos. Ainda devemos considerar que, a perspectiva das férias, pelo andar da pandemia, poderá ser um fator de agravamento de tensões e frustrações que devemos prever e preparar pois, como nunca antes, teremos um ócio confinado.

Necessitamos ter uma noção mais exata das dificuldades familiares, dos entraves de aprendizado para que possamos criar, dia a dia, condições mínimas de um processo proveitoso porque agradável, caminho único para se educar. Encantamento e educação constituem um binômio pétreo cujo desrespeito fez legiões de frustrados, mas cuja obediência fez a humanidade crescer!

Professor Henrique Vailati Neto é diretor do Colégio FAAP – SP. Formado em História e Pedagogia, com mestrado em Administração. É professor universitário nas disciplinas de Sociologia e Ciência Política. Tem quatro filhos e quatro netos.

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