Muito além da Biologia: para viver nossa própria História

Colégio FAAP

30 de abril de 2020 | 10h47

Filho de professor e também professor de História, fiz dela meu lazer e justificativa para poder estar onde sempre desejei: numa sala de aula.

Mas, sem dúvida, o que mais me cativou foi a forma como a História me foi apresentada: numa narrativa envolvente, rica e fidedigna, meu pai me contava sobre a História por ele vivida, de como revoluções, momentos importantes o fizeram um ser de seu tempo. Aprendeu a ler com a mãe, minha avó, nas manchetes de O Estado de S. Paulo, ou seja, foi alfabetizado contemplando a vida.

Nestes tempos de pandemia, onde muitos se perguntam se a humanidade amanhecerá diferente, uma resposta que tem sido recorrente: nada será diferente. A grande maioria das pessoas torce para tudo voltar à rotina, para o sistema reagir e para que possamos esquecer tanta tristeza e retornarmos à “normalidade”.

Pois isso é tudo o que os educadores não devem permitir!

Como esquecer os imensos sacrifícios humanos que testemunhamos?

Como não revisitar, sistematicamente, e refletir tão densa e trágica página de nossas histórias?

Não existem justificativas para encobrirmos ou atenuarmos os fatos. Sempre considerando o grau de sensibilidade e a capacidade de entendimento de nossos educandos, há que colocá-los face a face à sua própria história, de forma corajosa e ética!

É certo que a Biologia ganhou, evidentemente, lugar de destaque. Mas, jamais poderia ceder a primazia à História e à Filosofia para evitarmos que essa imensa, profunda e desnorteadora crise não plasme uma geração perdida, pois este é o grande risco de sairmos em busca de retorno a um mundo inexistente!

Às crianças tenho aconselhado a fazerem diários que, amenizando o real, em seu rico imaginário, possam construir a sua crônica de época de forma a, estando protegidos, conseguirem, com suas limitações, terem uma visão do mundo exterior.

Aos demais, a visita crítica às manchetes. O passeio pelos acontecimentos amparado e estimulado pelos educadores deve construir a narrativa de suas próprias histórias: nada é mais melancólico do que, ao se comentar uma época com um alguém que a viveu, presenciar reações de estranheza. Nada menos humano do que ser um estrangeiro em seu próprio tempo!

Se vivemos um tempo de transe profundo, temos que dele nos apropriarmos para, com ele, aprendermos, pois nada é mais imbecil do que não aprender com suas próprias dores e achar que cicatrizes não escrevem histórias indeléveis em nossas peles!

Professor Henrique Vailati Neto é diretor do Colégio FAAP – SP. Formado em História e Pedagogia, com mestrado em Administração. É professor universitário nas disciplinas de Sociologia e Ciência Política. Tem quatro filhos e quatro netos.

Troque ideia com o professor: col.diretoria@faap.br

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