Lições do mestre coronavirus III: a pedagogia na peste

Colégio FAAP

27 de março de 2020 | 09h28

Se cada dia é uma nova realidade em todos os aspectos, na educação parece que isso ainda não ficou muito claro: grande parte das pessoas e instituições ainda não se deu conta de que as velhas fórmulas faliram ou, ao menos, por ora não funcionarão porque o contexto é, radicalmente, outro e avaliações prematuras acabam desconstruindo o pouco já refeito.

Falo do ensino médio, onde a utilização de tecnologia era um complemento à educação presencial e, como tal, operando instrumentos e estratégias centradas no ensino presencial, sempre com uma cultura tradicionalizante muito forte, que insistia nas aulas expositivas. Neste ano, buscando acelerar a modernização de nossos instrumentos didáticos, ao reduzirmos, discretamente, as aulas expositivas, sentimos essa resistência retrógrada que estávamos desbastando.

É fato consumado por pesquisas sérias que a exposição, despida de mecanismos de retenção recorrentes, têm um índice pífio de aproveitamento e que, em tempos de nativos digitais com capacidade reduzida de concentração, chega a índices assustadores.

O problema reside nos “milagrosos da educação” que, produzindo vídeos descontextualizados da realidade de ensino regular, criam uma comparação injusta e pedagogicamente prejudicial.

Sejamos práticos, administrando em tempo real o atual processo pedagógico do Colégio FAAP, mesmo tendo uma equipe afeita à tecnologia e com famílias atentas, começa a surgir a necessidade de acertos didáticos decorrentes do inusitado contexto para todos os envolvidos no processo.

Se é verdade que se perde no detalhe, vamos a eles mesmo que reprisemos o óbvio:

– a adaptação a um novo colégio demanda, ao menos, algumas semanas de paciência e dedicação. Em tempos de exceção, há que se ter muito mais de tudo isso.

começamos com uma dose muito grande de disciplina dos alunos apoiados e das famílias. Não bastasse a ansiedade de que todos somos vítimas, o contexto doméstico é um terreno fértil à descontinuidade de tarefas iniciadas e interrompidas pelo universo que vai da geladeira, passa pela televisão e falece, geralmente, no celular.

– estabelecer horários e respeitá-los será a diferença entre aprendizagem ou reprovação.

– o professor sempre será o guia e o apoiador do processo. Veja os seus plantões, respeite-os por que ele tem que atender a todos com atenção e cuidado. Professores particulares, tios competentes são apoios úteis desde que orientados pelos respectivos professores.

– se a questão for técnica, nossa equipe está de plantão para dirimir dificuldades que o uso intenso de tecnologia irá gerando.

– às famílias que, ora, tem a rara oportunidade de dar mais apoio aos seus filhos, lembramos que apoio não é paternalismo e, muito menos, mimo. É comum pais que, já mais distantes do cotidiano da educação, acabem “comprando as brigas” e não dividindo as dificuldades dos filhos, sobretudo porque convívio intenso e paciência são antagônicos.

– para que alunos e famílias tenham o panorama geral do andamento dos estudos, basta recorrer ao setor e Orientação Educacional que acompanha, em tempo real, o processo.

– todas as instituições de ensino, sem exceção, estão testando novos instrumentos: é mais uma demonstração de afoita ignorância crer que, sem o convívio diário com os professores e colegas, se consegue, de imediato, produzir pedagogia da crise séria.

– insistimos: o que tínhamos antes de ensino a distância, tirando os simulacros mercenários, eram ferramentas construídas para uma realidade que não mais existe!

Enfim, se conseguir sair do impasse civilizatório que enfrentamos é tarefa de reconstrução conjunta, não abandonar este ano letivo é urgente, pois vestibulares, ENEM e a própria vida cobrarão!

Professor Henrique Vailati Neto é diretor do Colégio FAAP – SP. Formado em História e Pedagogia, com mestrado em Administração. É professor universitário nas disciplinas de Sociologia e Ciência Política. Tem quatro filhos e quatro netos.

Troque ideia com o professor: col.diretoria@faap.br

Tags: Colégio FAAP, FAAP, coronavírus, educação, Henrique Vailati

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