“Estudar geografia é um processo dinâmico, uma forma de compreender o mundo em que vivemos”

“Estudar geografia é um processo dinâmico, uma forma de compreender o mundo em que vivemos”

Colégio FAAP

10 de maio de 2019 | 14h04

Responsável pelas aulas de Geografia no Colégio FAAP, a professora Maria Lúcia Sampaio Santos conversou com o Blog sobre temas que permeiam a sua disciplina. Entre eles, as resistências encontradas em sala de aula e o uso da internet como recurso para aplicar o conhecimento, por meio de fontes confiáveis, estimulando e favorecendo o aprendizado.

“Recebemos, hoje, em apenas um dia, mais informações do que nossos avós recebiam durante toda a sua vida. Isso significa que, muito mais que fornecer informações, a escola de hoje – e eu diria o ensino da geografia – deve desenvolver no aluno a capacidade de selecioná-las, de filtrá-las, para separar o que é importante, o que tem credibilidade, daquilo que é superficial ou enganoso”, disse.

Há mais de 30 anos no Colégio FAAP, a professora Maria Lúcia é formada em Geografia e Estudos Sociais, com pós-graduação em Geografia. Confira a entrevista completa:

 

Vários recursos, além do uso de livros didáticos, têm sido utilizado para ensinar Geografia (Foto: Fernando Silveira)

 

Você leciona Geografia há 30 anos no Colégio FAAP. Desde a sua formação, o ensino da Geografia mudou? Se sim, quais as principais mudanças? Como você se adaptou a isso?

É preciso lembrar que, durante muito tempo, o ensino da geografia foi marcado por uma abordagem descritiva, em que se preocupava muito mais em decorar as informações passadas pelo professor, do que realmente construir um pensamento crítico sobre as questões estudadas.
Antigamente era muito comum cobrar lista de capitais, nome de afluentes de rios, número de habitantes e tantas outras coisas, sem se preocupar em compreender, analisar, relacionar, interpretar ou assimilar o conhecimento, dando sentido e significado aos conteúdos ensinados e construídos.
A revisão do ensino de geografia ocorreu a partir dos anos de 1980, passando por uma reformulação dos conteúdos e das formas de ensinar e aprender as diferentes disciplinas.
Estudar geografia é um processo dinâmico, uma forma de compreender o mundo em que vivemos, acompanhando as mudanças provocadas pela revolução técnico-científica e a globalização. No mundo de hoje, temos que pensar de forma global, pois todos os problemas são interdependentes.

Diante dessas mudanças, quais as principais resistências enfrentadas no ensino de sua disciplina?

Creio que, atualmente, o principal desafio enfrentado no ensino da geografia seja a falta de hábito de boa leitura. O que percebo é que os alunos têm acesso a uma multiplicidade de fontes de informações e linguagens, mas não sabem aproveitar tal diversidade, sendo que são poucos aqueles que voluntariamente se aprofundam na leitura de um texto mais denso.
Assim, em razão disso, o que observo é que por não saberem como selecionar as informações recebidas, aliada à rapidez na troca de informações, muitas vezes os alunos acabam valorizando fontes cuja qualidade e veracidade do conteúdo seja contestável.

E como fazer para mostrar a importância da Geografia, tendo em vista um mundo que privilegia o avanço tecnológico?

A geografia contemporânea tem privilegiado o conhecimento sobre o espaço geográfico em diferentes escalas de análise.
O espaço geográfico, isto é, o meio, a realidade material, em que a Humanidade vive e do qual é parte integrante, não se resume apenas ao local de morada da sociedade humana, mas constitui principalmente uma realidade que é, a cada momento, (re)construída pela atividade do ser humano. Indústrias, agricultura, rios, vegetação, solo, cidades, climas e populações fazem parte do espaço geográfico.
Assim como a sociedade, o espaço geográfico possui história, mas é dinâmico, vivo e aberto ao futuro. A produção de riqueza e a disseminação da pobreza são processos sociais conectados. O conhecimento geográfico e o desenvolvimento da ciência geográfica estão ligados à história da humanidade, à história de suas ideologias, de sua organização territorial, de suas conquistas, de suas lutas por poder.
A busca pela compreensão da maneira como os habitantes de cada lugar desenvolveram a sua espacialidade, a sua identidade e como eles se relacionam com outros lugares é um caminho para tentar compreender a Geografia do mundo atual.
Na atualidade, não existe nenhum país que não dependa dos demais, seja para o suprimento de parte das suas necessidades materiais, seja pela internacionalização da tecnologia, da arte, dos valores, da política e da cultura, o que acaba criando uma verdadeira e interessante colcha de retalhos que é objeto de estudo pela Geografia.

Profª Maria Lucia: “temos que orientar nossos alunos a usarem fontes respeitáveis e recursos audiovisuais adequados” (Foto: Fernando Silveira / FAAP)

 

Além de livros didáticos, que outros recursos são utilizados para explicar o conteúdo?

Para explicar o conteúdo proponho discussões em aula, pois dão oportunidade para que o aluno desenvolva o raciocínio, o pensamento crítico, bem como a retórica e oratória. Utilizo a aprendizagem em pares, por exemplo, quando indico  para que os alunos de 3º ano se informem sobre as “fontes alternativas de energia” e, no dia marcado, peço que compartilhem as informações obtidas, efetuando comparações entre as fontes pesquisadas, de modo que ao final consigam efetuar uma verdadeira reflexão sobre a importância de tal tema. Também temos o estudo em grupos, além dos seminários, por meio dos quais exijo que os alunos venham a efetivamente produzir um conteúdo, para que eles consigam direcionar a própria aprendizagem, enquanto exploram seus conhecimentos. Por meio de tais métodos, percebo que os alunos acabam adquirindo mais confiança, autonomia e melhor percepção dos fatos.

E recursos tecnológicos, você utiliza em sua aula? Se sim, de que forma? Explique a importância desse uso?

Claro que o uso da tecnologia ajuda muito em sala de aula: nas pesquisas, nas localizações, nas delimitações de fronteiras, nas atualizações de informações, nas ilustrações de paisagens, gráficos etc. Recebemos, hoje, em apenas um dia, mais informações do que nossos avós recebiam durante toda a sua vida. Isso significa que, muito mais que fornecer informações, a escola de hoje – e eu diria o ensino da geografia – deve desenvolver no aluno a capacidade de selecioná-las, de filtrá-las para separar o que é importante, o que tem credibilidade, daquilo que é superficial ou enganoso.

É possível dizer que a Geografia ganhou muito com a Internet? Por exemplo, falar sobre solo, vegetação, hidrografia etc a partir de imagens em tempo real, mapas interativos etc?
Lógico que sim, a internet é uma ferramenta incrível, faz buscas rápidas, mostra dados, mapas, imagens, gráficos e informações de qualquer lugar da superfície terrestre, que é o lugar onde a humanidade vive e na qual produz modificações. A utilização da internet, vídeos, observação de paisagem etc. sempre estimula os alunos e favorece o aprendizado.
No entanto, como já mencionei, temos que orientar nossos alunos a usarem fontes respeitáveis e recursos audiovisuais adequados.
O clima se inter-relaciona com os processos de modelagem do relevo, com a formação das rochas e dos solos, com a economia e a questão ambiental. As informações sobre solo, vegetação, clima, hidrografia, agricultura, relações comerciais e capitalismo estão sempre relacionadas entre si, ampliando cada vez mais o conjunto de variáveis necessárias à compreensão dos fenômenos. Do ciclo das rochas à formação dos centros de alta pressão, das imagens de Machu Pichu à localização dos principais biomas que dão identidade ao ecossistema planetário, vamos desvendando os significados e as maneiras pelas quais esses fatores estão associados.