Educar para vencer e perder

Colégio FAAP

23 de outubro de 2020 | 11h41

Como pais vocacionados que nós professores somos, marcamos nossa jornada pelos triunfos e percalços de nossos alunos. Por isso, poucas coisas nos machucam tanto quanto ouvir “não deu certo”, eufemismo ácido que esconde o fracasso.

Não é a primeira vez que aqui venho falar desse estigma cultural que, em inglês, parece mais danoso e se exprime pela palavra loser, uma ofensa que traz em seu conteúdo a síntese de uma civilização cruelmente bipolarizada, cujas referências para a vitória são absolutamente falaciosas, estreitando, ou quase extinguindo, o caminho para a felicidade genuína.

O que é “não dar certo na vida”?

Quais são as referências éticas e existenciais a se considerar para afirmar que uma vida foi em vão ou exitosa?

Vincular a felicidade a valores transitórios e materiais que jogam legiões de infelizes numa carreira suicida de perseguição ao inalcançável para manter “engrenagens azeitadas”, já se revelou o grande equívoco. Não será essa a via pela qual os muitos “ismos” sobreviverão. Pulsa nos jovens um anseio muito forte de romper esses horizontes míopes. Um novo universo de valores se entrevê nas trincas de estruturas periclitantes.

Educar para a conquista da felicidade é a missão indeclinável da educação. Nada mais triste do que contemplar multidões de “vencedores” infelizes ostentando com tristeza currículos de sucesso social e de fracassos pessoais. Está terminando a era em que a vitória se media pela quantidade de carros novos que uma pessoa possuiu.

Assistimos pais e educadores preparando guerreiros para lutas que não são deles, que não puderam escolher, ou mesmo tinham consciência do motivo e para quem lutavam.

A escola deve ter um papel libertador, não libertário, pois consequente e responsável. É muito desolador ver nossos jovens, ao terminarem o ensino médio, serem “doutrinados para a luta pelo mercado”. Seres humanos felizes com o que na vida, realmente, escolheram, jamais temerão vicissitudes momentâneas. Não terão concorrência fatal, pois recriarão seus projetos sem abrir mão de seus ideais.

Neutralizar pressões externas pela via da conscientização do contexto social do aluno é o núcleo vital do trabalho de orientação vocacional, ou seja, ajudar o educando a se descobrir parcela de um todo muito mais amplo, complexo e poderoso para, olhando esse todo com uma visão mais lúcida e crítica, fazer suas escolhas.

Nos cabe instrumentalizar o educando para se descobrir, para ter as ferramentas necessárias para fazer o seu próprio caminho, para ser imunizado de pressões externas que valorizam os troféus de plástico dourado, honrarias escritas em pergaminho falso. Apoiar as descobertas da vida, incentivar projetos mesmo que aparentemente inalcançáveis, reunir e disponibilizar o conhecimento pertinente e, sobretudo, as competências para a realização pessoal de cada educando é a missão indiscutível da escola.

Na luta por um ideal, conscientemente abraçado, cada percalço será uma vitória e não existirá “quem não deu certo”!

 

 

Professor Henrique Vailati Neto é diretor do Colégio FAAP – SP. Formado em História e Pedagogia, com mestrado em Administração. É professor universitário nas disciplinas de Sociologia e Ciência Política. Tem quatro filhos e quatro netos.

 

Troque ideia com o professor: col.diretoria@faap.br

 

 

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