Critérios de avaliação: fortaleza ameaçada!

Colégio FAAP

11 de setembro de 2020 | 10h06

No centro e no término das grandes crises da história encontraremos os grandes impérios como causas e como vítimas finais. Deixando (por motivos óbvios) as causas da crise que vivemos, não há como olvidar que núcleos de poder e certezas, até então imbatíveis, serão profundamente afetados ou, mesmo, sacrificados.

Um dos mais duros núcleos na educação é, sem dúvida, a avaliação escolar: centro de poder, fator de promoção ou condenação de instituições, causa de júbilo ou fracasso humano, ponto de honra que, na vida escolar, polariza (indevidamente) as mais renhidas controvérsias.

Há alguns anos, refletindo sobre o tema, escrevi um artigo que intitulei “A ditadura da caneta vermelha”. Partindo de uma autocrítica, busquei circunscrever a poderosa cultura que envolve o “império da nota”, onde centésimos de ponto podem gerar conflitos e decidir rumos de vida. Espaço sagrado que se confunde com o poder das entidades escolares e que pode levar embates às barras da justiça.

Em que possa parecer exagero retórico típico da docência, lembramos o que a aprovação ou a reprovação escolar e o que um dez ou um zero significam e significaram na cultura escolar.

Pois, esse “império” se encontra, como tantos outros, no olho do furacão de profundas mudanças ou, no mínimo, de uma revisão radical que pode colocar em risco a própria instituição educacional. Celeremente nos aproximamos do termo final do período letivo (para as instituições que lograram se adaptar às novas condições de ensino) e, a hora do fechamento final das notas. Será o momento de se avaliar tudo o que foi feito por todos os elementos do processo escolar!

Prevendo tais dificuldades, o Colégio FAAP, tão logo se deu conta da extensão e duração da pandemia, começou uma cautelosa revisão dos critérios de avaliação que deverão nortear o novo processo de aprovação: resquícios ou padrões antigos (muito resistentes, por sinal) podem ser extremamente nocivos por não considerar a excepcionalidade ampla e profunda deste momento onde referências foram perdidas e o novo é pouco conhecido.

Buscamos criar novos padrões de acompanhamento do rendimento escolar alterado pelo distanciamento e pela intermediação informacional. Se os menos avisados põem em dúvida fatores secundários (e facilmente detectáveis) como originalidade de trabalhos escolares, questões muito mais vitais se colocam como estreitas fronteiras entre o sucesso ou fracasso: a “solidão pedagógica” gerada pela perda da cultura física escolar e pela quase total ausência do estímulo do companheirismo, o temor pelo desconhecido, enfim, um universo desumano que potencializou a grande sensibilidade de crianças e jovens.

Na FAAP, tendo acesso a recursos avançados e a turmas reduzidas, pudemos adaptar e minimizar os arrasadores efeitos do distanciamento na produção escolar. As avaliações deverão ser produtos de intensa e regular observação e interatividade com os alunos. A dessacralização das grandes provas deverá buscada. Trabalhos e temas deverão cuidar da criatividade e, sobretudo, de orientação e abordagens individualizadas.

Se o universo digital ampliou à exaustão a probabilidade de “desvios escolares”, permitiu, também, o acesso a um universo de pesquisas e recursos didáticos, interação e controle jamais imaginados. Sujeitar essa modernidade ao serviço da educação é o desafio do novo milênio e não apenas do momento!

Chegou, em definitivo, o fim das mesquinharias aritméticas, das “medidas rasas” da reprovação como símbolo único de seriedade. Esperamos que se estabeleça o tempo da avaliação do esforço acima de resultados discutíveis!

E, sempre será tempo, de nos lembrar que avaliar é julgar, a mais difícil e arriscada empreitada humana!

 

Professor Henrique Vailati Neto é diretor do Colégio FAAP – SP. Formado em História e Pedagogia, com mestrado em Administração. É professor universitário nas disciplinas de Sociologia e Ciência Política. Tem quatro filhos e quatro netos.

Troque ideia com o professor: col.diretoria@faap.br

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