Círculos de Leitura facilitam a compreensão de obras literárias

Círculos de Leitura facilitam a compreensão de obras literárias

Colégio FAAP

16 Novembro 2015 | 17h05

edicao_600px
Implantado no Colégio FAAP há quatro anos, o Círculo de Leitura é uma das iniciativas que desde o início mostrou que tinha todas as chances para dar certo. É realizado pelo menos duas vezes por semana em todas as classes do período integral, oferecendo a oportunidade aos alunos de analisar as obras literárias, em especial as clássicas. A leitura dos livros é sempre em voz alta. “A compreensão é mais fácil quando se lê dessa forma”, explica a professora de Língua Portuguesa, Sandra Raposo Tenório.

Muito mais do que incentivar o gosto pela leitura, o projeto vai além: “Nossa ideia é levar os alunos ao autoconhecimento e ao conhecimento do mundo em que vivem, por meio da leitura dos clássicos”, garante a professora. Confira a entrevista que a  professora Sandra concedeu ao blog do Colégio FAAP, na qual ela lembra com carinho da época quando vasculhava a biblioteca de sua casa em busca de novos livros para se aventurar. “As letras por si só já me encantavam”, diz.

Conte como começou a sua iniciação à leitura?

Tomei gosto pela Literatura por meio da obra de Monteiro Lobato. O sítio, no qual se passam as Reinações de Narizinho, era um espaço mágico na minha infância, onde minha fantasia encontrava evasão. Também tive a sorte de ter uma avó que contava histórias para a neta e um pai que amava a leitura. Lembro-me de que, à noite, meu pai se sentava na poltrona onde costuma ler, situada num lugar silencioso e lia por horas, com olhos atentos e envolvidos.

Por isso a importância do incentivo familiar?

Sim. Logo passei a vasculhar os livros da biblioteca da casa e acabei me alfabetizando  pelo contato constante com poemas, histórias e enciclopédias. Parece que pouco me importava se a obra condizia com minha faixa etária ou não. As letras por si só já me encantavam. Este passou a ser um dos meus mundos preferidos: ler, escrever, dramatizar, imaginar. Mais tarde, vi esse processo refletir-se no meu projeto de trabalho. Queria transferir aos leitores em formação meu encantamento com a Literatura e a possibilidade de reinventar a vida por meio dela.

Nos Círculos, você incentiva principalmente a leitura dos clássicos. Qual a importância para os jovens que participam do projeto?

Ler os clássicos propicia aos jovens o contato com emoções que comumente habitam a alma humana, estimula a reflexão e possibilita o treinamento da exposição de ideias em grupo. As discussões de temas, contextualizados nos textos e no círculo, demandam que as emoções se expressem respeitosamente e as ideias se organizem para se expor de modo compreensível. Também é uma forma de aprender a importância de ouvir atentamente e falar com adequação. Por meio do diálogo constrói-se o espírito crítico saudável.

O que mais a Literatura proporciona?

A Literatura, parceira fiel, indica o único caminho para a felicidade: o do autoconhecimento e da promoção do bem. Permite que os alunos tornem-se seres humanos mais seguros e dignos por constituírem uma célula social saudável. As obras literárias fornecem um arsenal valioso para que tracem seus caminhos próprios, integrados ao meio em que vivem. A análise do percurso de cada personagem, com seus erros e acertos, desperta reflexões significativas sobre as causas e consequências das atitudes humanas. Vê-se que, em todos os tempos, só prevaleceu o que foi genuinamente gerado pelo amor, principal matéria-prima da Literatura. Portanto, aí se encontra talvez a principal justificativa para se ler os clássicos.

Qual a melhor forma de estudar os clássicos? Existe alguma regra?

Utilizamos vários recursos, como a leitura silenciosa e a dramatizada, a roda de opiniões, a dramatização, a expressão escrita, os recursos de informática e audiovisuais. As aulas acontecem de maneira construtivista ou não. Procuramos sempre diversificar as estratégias para chamar a atenção do aluno.

Os alunos leem os textos originais?

Sim, apenas os originais. Não indicamos as adaptações porque o ideal é que o aluno tenha contato com o estilo dos diferentes autores. Tanto os temas quanto a linguagem do autor são compreendidos, quando lemos principalmente em voz alta e em conjunto. Partimos sempre da leitura oral para a assimilação do sentido do som. Afinal, antes de ler ou escrever, aprendemos em nossas vidas a falar. A fala tem estrita relação com nosso arquivo afetivo e emocional. Lembro-me de aulas sobre Os Lusíadas de Camões, em que a compreensão do poema em geral se dá porque o lemos em voz alta. A dificuldade do vocabulário distante apaga-se a partir da audição da melodia do verso e, dela, surge a compreensão.

Profª-Sandra-Raposo-Tenório

As novas tecnologias atrapalham?

Tudo é válido e não acredito que os recursos de informática possam ser prejudiciais, em absoluto, pois os utilizo como mais uma possibilidade dentre tantas, como a de poder concretizar com imagens a natureza, objetos, tipos humanos, lugares desconhecidos. Até uma oportunidade de explorar a fantasia ou conhecer melhor a realidade, expandindo conhecimentos, explorando outros universos com pesquisas. A relação afetiva sempre prevalece sobre a estratégia.

Para finalizar, cite cinco obras literárias que todos devem ter o prazer de ter lido um dia.

– O Pequeno Príncipe, de Antoine Saint- Exupéry, uma lição de amor para se encontrar o sentido da vida;
– Odisseia, de Homero, que traz o grande herói Ulisses no enfrentamento de si mesmo para chegar a Ítaca;
– os contos e romances de Machado de Assis, em particular o conto O Alienista e o romance Dom Casmurro, narração sob o olhar de Bentinho, que se vê traído pela própria ilusão;
– Sentimento do mundo, poemas de Carlos Drummond de Andrade, uma reflexão sobre o estar no mundo de beleza poética inigualável;
– Grande sertão: veredas e os contos de Guimarães Rosa, a oportunidade de reflexão sobre indagações pessoais e universais no espaço da consciência;
– A Voz Interior de José Pais de Carvalho, única quanto à beleza poética da linguagem e inédita quanto à abordagem descritiva das emoções humanas no mundo contemporâneo: a reflexão de Pedro, que nos leva a questionarmos o nosso quadro conceitual, impregnado de juízos, a enfrentarmos o ego, que nos ilude e aprisiona, e a reconhecermos nossa própria natureza, ou seja, ao autoconhecimento.