Ciência e prepotência: uma péssima rima

Colégio FAAP

28 de agosto de 2020 | 15h48

Sempre no encalço de tirarmos o máximo proveito do nosso atual contexto, trazemos outra reflexão que nos permite, juntamente com os nossos alunos, trabalhar a essência de uma das mais difíceis escolhas vocacionais: a área do conhecimento eleita para a vida profissional, quase sempre, resultado do nosso primeiro contato com o conhecimento.

As discussões sobre a importância desta ou daquela área das ciências marcaram a vida profissional de milhões de jovens pelos preconceitos e imagens preponderantes. Na história recente, as ciências sociais foram estigmatizadas como subalternas ou, no dizer do vulgo, “perfumarias”, que não podiam se comparar às “ciências exatas”, produtivas, vitais para o progresso e não geradoras de discussões inócuas e perigosas. Generalizações destruidoras de vocações e irreais.

Ainda há pouco, essa ditadura das ciências da natureza perdurava imperial, exata, irretorquível, indiscutível, completamente estranha ao verdadeiro padrão científico, ou seja, construir hipóteses fundamentadas, reconhecer, sempre, o conhecimento como provisório, não criar leis pétreas, mas aceitar conclusões sólidas, debatidas, confrontadas e, jamais, verdades absolutas e definitivas.

Os poucos redutos da prepotência científica foram sendo derrubados pela virulência imprevista e desconhecida da pandemia, pela certeza das limitações do conhecimento. Foi um desfilar de posições de cautela, de conclusões derivadas de milhares de horas de pesquisa e da colaboração de equipes multidisciplinares em colaboração global.

O que ficou patente foi o encastelamento da prepotência em núcleos de ignorância e de mesquinhez interesseira, numa franca demonstração de que a verdadeira ciência nasce do reconhecimento das limitações humanas ante a natureza e se fundamenta na humildade. Nada mais emocionante do que a singeleza e a simplicidade de cientistas de vanguarda, de luminares da humanidade, trazendo a público suas dúvidas, revelando sua insegurança ante o ignoto.

Resgatar a grandeza da humildade enquanto condição do conhecimento é fundamental tarefa do educador nestes tempos em que os avanços tecnológicos criaram a mística de um poder de que não somos possuidores. Chega a ser pungente a ânsia infantil do público ante as entrevistas que falam das limitações da medicina e da infectologia; é chocante a pequenez das soluções trânsfugas apresentadas pelos arautos da ignorância, prepotente por vocação.

Ao velho professor que pautou sua vida por paradigmas da profissão, é inevitável o desfilar na memória às referências opostas no desempenho da educação. Num espectro que vai de um extremo a outro da humildade ante o conhecimento, encontramos a essência da verdadeira pedagogia da formação científica.

No polo negativo, encontramos o intelectual dono de algumas luzes que, pelas suas posturas, mesmo causando alguma admiração, intimida os alunos que, se “recolhendo à sua pequenez”, com medo de errar, evitam tal companhia temendo a vergonha do fracasso. Seres que transformam lindas paisagens em espaços deprimentes, em zonas de perigo a se evitar.

No polo positivo, o verdadeiro mestre que, dono da “chave do conhecimento”, o apresenta como um atraente desafio e se oferece como parceiro na viagem, como um igual que sabe das dificuldades e ajuda a superá-las, que não se envaidece das  conquistas, mas que se plenifica com as vitórias do educando e o encoraja a  continuar. Seres que transformam paisagens áridas em oásis desejáveis que decodificam a lógica impenetrável das ciências numa linguagem lúdica.

Levar os nossos alunos a observar tais posturas é uma das oportunidades que se apresenta e uma das vitais oportunidades de repensarmos como apresentamos o conhecimento, como devemos revestir conteúdos com trajes de atualidade, despindo as velhas e “sérias” posturas.

Quantas carreiras abortadas e vocações preteridas pela identificação do conhecimento com um “mau apresentador” que povoou pesadelos pedagógicos!

Professor Henrique Vailati Neto é diretor do Colégio FAAP – SP. Formado em História e Pedagogia, com mestrado em Administração. É professor universitário nas disciplinas de Sociologia e Ciência Política. Tem quatro filhos e quatro netos.

Troque ideia com o professor: col.diretoria@faap.br

 

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