Autoconfiança e irresponsabilidade: mais um desafio urgente para o educador

Colégio FAAP

16 de abril de 2021 | 09h55

Quando os índices de contaminação da pandemia começaram a indicar que os jovens se transformaram em grupo de risco, não poderíamos deixar de redobrar nossos esforços para evitar que percamos promessas de vida para a insensatez.

Educadores, em todos os níveis da educação, sempre se desdobraram para que os educandos conquistem autoconfiança e autonomia. Um dos primeiros sintomas positivos dessa difícil construção, na adolescência, é o sentimento de onipotência que resvala pela crença na imortalidade. Sempre observamos, com um misto de admiração e receio, rompantes de coragem irresponsável que acometem os jovens em busca de autoafirmação.

Em tempos de normalidade, pequenos sustos, arranhões e conselhos sempre surtiram efeito para amenizar essa fase passageira que, muitas vezes, era neutralizada pela orientação, por atividades esportivas e de lazer que consolidavam a formação do caráter sem maiores riscos.

Bons tempos em que tínhamos meios de evitar acidentes e drogas, as maiores ameaças aos nossos jovens. Orientações e apoio surtiam, na grande maioria dos casos, a superar essa fase de risco, que ficava como uma espécie de dores do crescimento, restando pequenas cicatrizes de peripécias nascidas do descompasso entre a maturidade física e o amadurecimento psicológico.

Hoje, no entanto, numa desproporção cruel, as fronteiras entre a aventura juvenil irresponsável e a morte se aproximaram no limite do desaparecimento!

Se as campanhas públicas, tardia e inconsistentemente, atacam a inconsequência de parte da população com respeito aos riscos e responsabilidade social na pandemia, cabe às instituições de ensino redobrar seus esforços para, enquanto têm mais acesso aos seus alunos, educá-los para a consciência de que as mortes irresponsáveis pela pandemia não têm nada de heroico, mas de cruelmente egoísta e doloroso.

Certa vez, ante um comentário de profunda falta de caridade para com portadores de deficiência física, fizemos uma visita, com toda uma turma, a uma entidade de assistência a crianças que trata desses indivíduos. Ante a luta de médicos, fisioterapeutas e voluntários, a cada passo naqueles verdadeiros corredores de esperança, assistimos ao nascimento de uma consciência da dor alheia àqueles jovens que nunca haviam visto esse outro lado da vida e foram expostos à concretude do sofrimento.

Impossibilitados pelos perigos de contágio, não há como colocarmos os jovens mais próximos dessa hecatombe sanitária, mas deveríamos, insistentemente, trazer depoimentos, não apenas daqueles que lutam nas trincheiras da vida, mas de quem enfrentou os horrores da doença e, sobretudo, liderar atitudes exemplares que, muitos adultos, estão se omitindo.

 

Professor Henrique Vailati Neto é diretor do Colégio FAAP – SP. Formado em História e Pedagogia, com mestrado em Administração. É professor universitário nas disciplinas de Sociologia e Ciência Política. Tem quatro filhos e quatro netos.

 

Troque ideia com o professor: col.diretoria@faap.br

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