As cavernas de cristal: os jovens no ciberespaço

As cavernas de cristal: os jovens no ciberespaço

Colégio FAAP

06 Outubro 2016 | 09h43

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Falar dos ilimitados horizontes que se abriram com os avanços digitais é, definitivamente, ofensa aos leitores.

No entanto, há muito anos, os educadores não têm encontrado o suporte necessário para refletirem sobre os riscos desse inusitado ambiente em que habitam nossos jovens. Àqueles que creem serem excessivas as preocupações, lembro das discrepâncias entre o avassalador e vertiginoso crescimento desse espaço de interação e a proporcionalmente diminuta pesquisa das mudanças sociais por ele operadas.

Se a Galáxia de Gutemberg foi exaustivamente estudada, o Universo de Steve Jobs é um enorme buraco negro consumindo não sabemos o quê.

Assim, ainda que de forma rudimentar e canhestra, traremos algumas considerações nascidas da observação empírica, mas atenta, desse universo em que gravitam esses nativos digitais, sobretudo, naqueles aspectos que envolvem a imagem, a dignidade e a segurança deles.

É nossa obrigação de educador mostrar aos jovens as possíveis consequências da exposição pública de suas imagens nas redes sociais. Uma boa parte das famílias só se dá conta da amplitude dos problemas dessa divulgação descontrolada quando efeitos adversos já aconteceram: fotos inconsequentes de festas, de momentos de descontração juvenil vão formando uma imagem pública que, descontextualizada, distorcem e comprometem o verdadeiro perfil. Da mesma forma, esse perfil irreal, apropriado pela rede, poderá vir a comprometer uma carreira profissional. Diversas empresas consultam as redes para recrutarem seus colaboradores. Tornar pública a privacidade se tornou um modismo inconsequente.

Outro aspecto pouco alertado é o de que esse volume de informações pessoais, de muitas formas, implica em brechas na segurança pessoal. Na medida em que os grupos vão se ampliando, agregando novas e pouco conhecidas adesões, mensagens de locais e ocasiões de férias, gostos e outras informações de cunho privado fornecem matéria-prima de risco.

À margem dessas preocupações de caráter mais utilitário, surge a grande e preocupante discussão: que tipo de relação social está nascendo dessa vida em cavernas digitais que, no entanto, permitem visibilidade pública?

Com o excesso de atenção aos equipamentos eletrônicos móveis em momentos de convívio (almoços, reuniões e encontros são violentados pelo digitar incontrolável de telas), me indago a respeito da qualidade das relações sociais intermediadas por esse espaço digital. É muito comum encontrarmos pessoas próximas, fisicamente, conversando por mensagens. Se conseguimos resgatar antigas amizades nas redes, me pergunto, sem conseguir uma resposta, em que grau de proximidade o fazemos?

Na medida em que corremos o risco de atrofiar a riqueza da comunicação direta, numa grande parte de nossos contatos, em conteúdos prosaicos e com textos de má qualidade, o que fica de positivo? Fotos artificiais mostrando a vida como se fora uma festa eterna? Selfs glamorizando o cotidiano como em publicidade de margarina? Recadinhos inúteis tentando alinhavar uma sociedade hedonista e egoísta?

Tema vital, amplo e complexo para a limitação do espaço e do autor.

Professor Henrique Vailati Neto é diretor do Colégio FAAP – SP.
Formado em História e Pedagogia, com mestrado em Administração. É professor universitário nas disciplinas de Sociologia e Ciência Política. Tem quatro filhos e quatro netos.

Troque ideia com o professor: col.diretoria@faap.br