Alegria: fundamento da didática e princípio pedagógico essencial

Colégio FAAP

13 de novembro de 2020 | 09h56

Nestes tempos excepcionais em que fomos obrigados a verdadeiras pirotecnias didáticas para compensar o distanciamento físico, dediquei-me à reflexão sobre tudo o que pratiquei, aprendi e observei na difícil e mutável arte de ensinar. Todos nós começamos emulando aqueles que nos seduziram e levaram à profissão, mestres exemplares que marcaram nosso estilo. Seminários e leituras foram buscados pelo receio do anacronismo; abrimos mão, muitas vezes, de práticas consolidadas para retornar a elas buscando encontrar o melhor caminho nesse emaranhado de obstáculos e situações inusitadas.

Prof. Henrique Vailati Neto – diretor do Colégio FAAP (Foto: Fernando Silveira)

Enfim, ensinar sempre será um gigantesco e muito delicado trabalho artesanal, cuja mutabilidade e fragilidade da matéria-prima nos obrigam à máxima atenção sob pena de “estragá-la para sempre”. Quantos seres humanos foram desestimulados (ou mesmo castrados) para certas áreas do conhecimento pela incompetência pedagógica de um professor?

Conseguindo colocar de lado todo um vasto ferramental de meios que iam do bem falar aos mais avançados recursos de TI, consegui chegar a um dos princípios essenciais e universais da pedagogia: a alegria no ensinar e no aprender, a criação da verdadeira atmosfera para a construção do saber pelo aluno.

Em um artigo, li uma frase lapidar de Nelson Rodrigues: “Se a tristeza deixa marcas profundas a alegria, muito mais”. Os momentos alegres, diferentemente dos tristes, buscamos conservar como patrimônios de nossas memórias e, quando neles está inserido o conhecimento, obtemos a fórmula ideal para ensinar e aprender

Lembro, com bastante dissabor, uma entrevista feita com o diretor de uma escola onde o indigitado personagem afirmava que “seus professores não eram palhaços e que risadas não tinham espaço em seu colégio”. Certamente, tentava justificar a sisudez árida de uma escola, como muitas outras, que se queria “séria”, “puxada”, diferentemente “daquelas outras risonhas e francas”. Era a essência de uma cultura retrógrada e contraproducente que acreditava que pessoas sérias deveriam ter siso, que a  alegria era coisa de irresponsáveis, que a linguagem da autoridade deveria ser de monossilábicos grunhidos, secundados por raros esgares de aprovação e que os “dentes do poder” não deveriam ser mostrados em sorrisos, quanto mais em risadas.

Terrível equívoco, provavelmente, provocado pela “ameaça da cultura dos cursinhos”, cuja orientação didática (deixemos a pedagogia distante) obrigava seus professores a verdadeiros malabarismos histriônicos para manter enormes plateias atentas nas maratonas dos vestibulares. A “maldição da escola risonha e franca”, algo altamente desejável, criou usinas de terror pedagógico que lograram produzir alguns sobreviventes exitosos, mas geraram legiões de recalcados.

Se a pedagogia se realiza numa cultura de cordialidade, a alegria é sua decorrência natural e desejável. Da mesma forma que a cordialidade espontânea é um dos fundamentos essenciais da autoridade, a alegria (que em nada ameaça a disciplina) é o coroamento de estruturas organizacionais saudáveis e proativas. Na rudeza do mercado, na aspereza da iniciação científica, ambientes leves predispõem ao enfrentamento dos desafios, facilitam o engajamento em ações coletivas como o mundo atual exige e a vida agradece.

Sei que não é simples, no cotidiano das aulas, manter esse clima de cordialidade e alegria sempre presente. A tarefa essencial nasce no desenho de um projeto educacional que contemple (na sua essência, em todos os momentos e lugares de sua existência), a construção de uma cultura cordial consciente e coerente que mostrará os seus frutos no perfil de seus alunos. Não surgirá de ações isoladas fortuitas e, dessa forma, se estabelecerá como um princípio que, naturalmente, contaminará toda a instituição.

                                                                                                                                                                               

 

Professor Henrique Vailati Neto é diretor do Colégio FAAP – SP. Formado em História e Pedagogia, com mestrado em Administração. É professor universitário nas disciplinas de Sociologia e Ciência Política. Tem quatro filhos e quatro netos.

 

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