A pedagogia do tempo na pandemia

Colégio FAAP

19 de fevereiro de 2021 | 10h00

Como professor de História, um dos maiores desafios é fazer com que jovens e, sobretudo, crianças consigam entender a dimensão de século (milênio, nem se fala). Para quem cinco anos representam uma vida, o debruçar sobre a vastidão da História é tarefa de difícil compreensão, é o desafio do tempo!

Em recente artigo, nosso colega de FAAP, Luiz Felipe Pondé, abordou, com seu peculiar brilhantismo, a questão do tempo social, o tempo de nossa humanidade que se diferencia do tempo biológico ou do tempo geológico. Conceito que ganha inusitada importância e que aumenta, sobretudo, pelo silêncio em que se esconde de nossa atenção.

Tempo, definitivamente, o mais humano e terrível marcador de nossas vidas!

Essa duração relativa das coisas e dos eventos humanos é mais uma das preocupações que o educador deve cuidar nestes tempos excepcionais: quando feriados são cancelados, aniversários se esvaziam de pessoas (seu mais precioso conteúdo), quando o tempo passa sem referências, ou seja, sem marcadores, sua própria essência fica esvaziada e o risco de um vácuo antropológico pode se insinuar.

Sentir o esvair do mais querido no calendário, das razões de nossas expectativas, das esperanças de alegrias previstas, pode ter um efeito potencializador de nossas tristezas que se agigantam neste edifício de perdas que vivemos. É o somatório de pequenas frustrações que não pode ser anulado por paliativos pouco criativos, pela presunção de que, “em breve tudo voltará ao normal”. Aniversários sem correrias, beijos e abraços; natais sem o buliço de papeis rasgados e carnavais televisivos são crônicas de uma tristeza anunciada.

Se lutar contra ausências inevitáveis é tarefa paliativa, ainda assim, é obrigação do educador: nos impõe uma espécie de ritual adaptado de luto onde devemos referenciar os eventos deformados pela realidade embrutecedora; cumpre, dentro de todas as limitações, emular eventos recordando os melhores dias enquanto promessas de recuperação.

Mais do que minimizar perdas devemos celebrar as datas de um calendário esmaecido para que o tempo, esse doce tirano, seja marcado pelos fatos memoráveis e para que a vida de nossos pequenos tenha pontos felizes de referência.

 

Professor Henrique Vailati Neto é diretor do Colégio FAAP – SP. Formado em História e Pedagogia, com mestrado em Administração. É professor universitário nas disciplinas de Sociologia e Ciência Política. Tem quatro filhos e quatro netos.

 

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