A pedagogia da peste

Colégio FAAP

03 de abril de 2020 | 10h23

Se prefiro a palavra peste ao seu sucedâneo eufêmico, pandemia, é porque a força histórica do termo traduz melhor alguns comportamentos que vemos brotar, insidiosamente, das fissuras deste contexto.

Obrigo-me a retornar ao mantra: ninguém ensina ninguém, se pode ajudar, apoiar, incentivar e consolar. O que ensina é o exemplo!

Ouso um pouco mais: não será o cruel exemplo da crise que promoverá aprendizado geral. Alguns aprenderão e a grande maioria voltará, mais amarga, a ser o que sempre foi. Mas os jovens é que poderão aprender, porque imunes à prepotência empedernida, causa das desgraças humanas. Estarão sensíveis ao novo!

É tristemente curioso que, ante o desabrido esforço de professores, assessores e técnicos para se produzir uma adequada pedagogia que possa atender ao absolutamente inusitado do momento, recebemos, de retorno, umas poucas críticas e nenhuma contribuição. Se a superação do desafio está na boa vontade, na união, parece que não começamos bem. Tomara que seja medo e não a eterna busca por culpados, marca dos inoperantes.

Nunca será demais dizer que as fórmulas de há pouco já se mostraram velhas, e as tentativas de se adaptar “recursos pedagógicos de prateleira” não passam de grosseiras dissimulações. Há que se recriar, inovar, pois a etimologia da palavra  crise é ruptura e, nela, fende-se um espaço entre passado e o desconhecido.

Assisti, preocupado, a oferta “desinteressada” de ferramentas pedagógicas no mercado. Se, num primeiro momento, ressalta um sentimento de solidariedade, por outro, fica patente que, ainda, não se percebeu a terrível diferença entre Ensino a Distância e Educação a Distância. O primeiro é instrumental, informativo, criado e utilizado, muitas vezes, com fins mercantilistas. A segunda é um projeto pensado, cuidadosamente, para incentivar, apoiar e criar condições para que o educando, se apropriando dos recursos oferecidos, construa sua formação.

Dessa forma, o ensino de massa pode até colaborar, mas jamais educará, pois ignorará peculiaridades do indivíduo e seu contexto cultural terreno único de fertilização do educar.

É certo que uma pluridade enorme de instituições não dispõe de recursos técnicos para atender às demandas que se apresentaram. É perfeitamente justificável que, diante do choque do inusitado, muitos ficaram paralisados e recorreram ao “mesmo de sempre”, não se dando conta de que o “sempre” deixou de existir. Mas o que mais apavora é a enorme falta de vontade e competência para encarar o desafio, superar o medo e criar o novo como única alternativa civilizatória.

Vendo nossos professores e equipe passando horas para continuar a educar nos tempos da peste, percebo a sorte que temos em ter um grupo de elite que, longe das manchetes pedagógicas, educa apesar de tudo e de tantos.

Quanto os arautos da ignorância terão de assistir as tragédias para se darem conta de que estão cultivando uma inércia suicida?

Professor Henrique Vailati Neto é diretor do Colégio FAAP – SP. Formado em História e Pedagogia, com mestrado em Administração. É professor universitário nas disciplinas de Sociologia e Ciência Política. Tem quatro filhos e quatro netos.

Troque ideia com o professor: col.diretoria@faap.br

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