A pedagogia da incerteza

Colégio FAAP

19 de junho de 2020 | 14h10

Em um de nossos últimos posts, falei da humildade como uma das grandes lições da pandemia. Humildade de reconhecermos nossas incapacidades, de nos redefinir, de aceitar limitações, de ter que reconhecer o mundo de joelhos aos pés de um vírus que debochou da inteligência artificial, que desafiou a ciência e que fez de fantoches poderosos líderes.

Outra grande lição destes tempos de agonia é a incerteza que ronda quase todas as nossas previsões e que deságua numa verdadeira epidemia de ansiedade enquanto moléstia do obscuro tempo futuro. Sobre tudo o que se planeja paira uma pesada e indevassável nuvem.

Tudo obriga, a nós educadores, a tarefa de levar os nossos alunos à reflexão sobre a incerteza, sobre como perder a prepotência de uma civilização cega pela falsa segurança conferida pelas conquistas tecnológicas. Devemos conduzir à reflexão crítica sobre a fragilidade da vida nos centros mundiais da “civilização adiantada”. Temos que convidar a ponderar sobre o angustiante convívio com o caminhar a pequenos e pensados passos.

A tarefa deverá ser o fazer da incerteza uma aliada, uma fonte de análise constante e cuidadosa das possibilidades de se sobreviver com dignidade; de se fazer do incerto um estímulo e não uma ameaça. Desafio de nossas vidas!

Mas a construção de uma pedagogia da incerteza demandará, da nossa parte, a confirmação dos nossos mais profundos e sólidos princípios éticos e morais, fundamentos únicos para se repensar a possível imponderabilidade que enfrentaremos. Quando quase tudo entra num processo de esvaziamento das certezas, o que permanece são nossas mais profundas crenças e, se elas se liquefazem, é porque eram construções frágeis plantadas em alicerces equivocados.

Para que possamos fortalecer essa vital reação, é necessário que as escolas mantenham e acentuem o foco na discussão filosófica e ética, permeando todas as disciplinas, é preciso que, mais do que nunca, se minimizem as abordagens centradas em conteúdos que visam, tão somente, objetivos pragmáticos e comerciais. Ou seja, vestibulares e provas de “rankeamento” não são imorais, mas serão um desserviço para o esforço de reconquista de um sentido civilizatório nesta ausência de um norte!

As grandes crises históricas têm o condão de, ou gerar multidões desorientadas e consumidas pelas incertezas, ou focos de renascimento do pensamento e das artes que fazem a retomada da humanidade em patamares superiores. Cabe a nós, educadores, escolhermos para qual destes caminhos queremos orientar os nossos alunos.

Professor Henrique Vailati Neto é diretor do Colégio FAAP – SP. Formado em História e Pedagogia, com mestrado em Administração. É professor universitário nas disciplinas de Sociologia e Ciência Política. Tem quatro filhos e quatro netos.

Troque ideia com o professor: col.diretoria@faap.br

 

Tudo o que sabemos sobre:

FAAPColégio FAAPeducação

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.